O vice-prefeito e secretário da Agricultura de São João do Oeste, Orlando Royer, avalia que, embora o preço do leite tenha iniciado um movimento de recuperação, os efeitos do longo período de queda ainda são sentidos no campo e na economia local. Para ele, o momento é de alívio moderado, mas também de atenção e planejamento.

Com uma produção média de cerca de 6 milhões de litros de leite por mês, o município sentiu de forma direta a desvalorização do produto. Considerando uma redução de aproximadamente R$ 1,00 por litro em determinados períodos, a estimativa é de que cerca de R$ 6 milhões deixaram de circular mensalmente. “Esse impacto fez com que muitos produtores reduzissem gastos e segurassem investimentos, tentando manter o equilíbrio financeiro dentro da propriedade”, explica.

Apesar das dificuldades enfrentadas, o setor demonstra uma característica marcante: a capacidade de adaptação. Mesmo com a redução no número de produtores, a produção total de leite no município aumentou significativamente. Em 2024, eram 402 produtores distribuídos em 306 propriedades. Já em 2025, o número caiu para 381 produtores em 292 propriedades. Ainda assim, a produção saltou de mais de 65 milhões para mais de 72 milhões de litros no período, representando um crescimento superior a 7 milhões de litros em apenas um ano.

Segundo Royer, esse movimento revela uma transformação estrutural na atividade leiteira. “O que estamos vendo é a saída gradual de pequenos produtores, muitas vezes sem sucessão familiar ou com dificuldades financeiras, enquanto outras propriedades investem em tecnologia e ampliam a escala de produção”, afirma. Esse processo, embora aumente a produtividade, também traz desafios relacionados à sustentabilidade econômica e à permanência das famílias no campo.

A crise enfrentada pelo setor leiteiro também mobilizou lideranças políticas e técnicas da região. Em reunião realizada no final de janeiro na AMEOSC, prefeitos, vice-prefeitos e secretários de Agricultura discutiram medidas para enfrentar o cenário adverso. A partir desse encontro, foi formada uma comissão regional com representantes de diferentes municípios, com o objetivo de articular ações conjuntas e buscar apoio em nível estadual.

Entre as primeiras iniciativas está uma campanha de incentivo ao consumo de leite e derivados, com a instalação de outdoors em rodovias estratégicas de Santa Catarina. A ação busca enfrentar uma tendência que preocupa o setor: enquanto a produção cresce, o consumo per capita vem diminuindo ao longo dos anos. “Precisamos trabalhar essa questão. O leite é um alimento saudável, acessível e fundamental na alimentação, mas muitas vezes acaba sendo prejudicado por informações incorretas que circulam, principalmente nas redes sociais”, destaca.

Outra medida em andamento é a criação da Federação Catarinense dos Produtores de Leite, que deverá representar de forma mais organizada os interesses do setor. A proposta prevê a formação de núcleos regionais, compostos por produtores indicados pelos municípios, que posteriormente integrarão a federação. A expectativa é de que essa estrutura fortaleça o diálogo com os governos estadual e federal, especialmente na defesa de políticas públicas voltadas à atividade.

Entre as pautas prioritárias estão a redução da carga tributária, o incentivo ao consumo por meio de programas sociais — como a inclusão do leite na merenda escolar — e a discussão sobre a importação de produtos lácteos. “Hoje, o produtor brasileiro enfrenta custos elevados, enquanto outros países incentivam a produção. Além disso, a entrada de leite importado com preços mais baixos acaba dificultando ainda mais a competitividade”, pontua Royer.

Ele também chama atenção para o aumento dos custos de produção, especialmente em sistemas mais tecnificados, como Compost Barn e Free Stall. Embora esses modelos permitam maior produtividade, também exigem investimentos elevados e maior controle de gestão. “Precisamos avançar em estratégias que ajudem a reduzir custos e aumentar a eficiência, garantindo que o produtor consiga se manter na atividade com rentabilidade”, ressalta.

Mesmo com o cenário ainda desafiador, a recente reação nos preços do leite traz um novo fôlego ao setor. No entanto, Royer reforça que o momento deve ser encarado com cautela. “É uma melhora importante, mas o setor leiteiro sempre foi marcado por altos e baixos. Por isso, é fundamental que o produtor aproveite esse período para se reorganizar e se preparar para possíveis oscilações futuras”, orienta.

Por fim, ele destaca que, embora o município tenha limitações na resolução de questões estruturais, busca contribuir de forma ativa. “Estamos fazendo a nossa parte, seja incentivando o consumo, participando das discussões regionais ou apoiando os produtores. Sabemos que não conseguimos resolver tudo, mas podemos ajudar a minimizar os impactos e fortalecer o setor”, conclui.