GERAÇÕES SOBRE RODAS: 1º Encontro de Carros Antigos reúne 70 veículos e muitas histórias

Motores que atravessam gerações, histórias que resistem ao tempo e amizades movidas à paixão sobre quatro rodas. Foi nesse clima de nostalgia e confraternização que o Veteran Car Club de Tunápolis realizou, no último domingo, 1º de março, o 1º Encontro de Amigos, Entusiastas e seus Veículos Antigos.

A rua coberta no centro da cidade se transformou em um verdadeiro túnel do tempo, reunindo 70 veículos vindos de toda a região. Entre cromados reluzentes e motores clássicos, diversos grupos e famílias participaram do evento, que contou com estrutura para churrasco no tradicional formato Stammtisch — onde cada participante levou o que consumiu, reforçando o espírito de união e parceria.

Em meio a tantos modelos que marcaram época, o encontro também foi palco de histórias especiais. Entre os presentes, selecionamos dois participantes: a de um apaixonado por carros antigos que cultiva um apreço mais que especial por essas relíquias e a do participante que trouxe o veículo mais antigo do encontro: relatos que mostram que, quando o assunto é veículo antigo, cada detalhe carrega uma história que merece ser contada.

BOINA, PENTE NO BOLSO E UM FUSCA NA GARAGEM: UM APAIXONADO POR CLÁSSICOS

Quem passou pela rua coberta no dia do encontro certamente notou: em meio ao burburinho das conversas, ao cheiro de gasolina misturado com churrasco e ao entra e sai curioso de visitantes, havia também um personagem que parecia ter atravessado o tempo para prestigiar o evento. Camisa social bem passada, calça alinhada, boina na cabeça e um pente estrategicamente colocado no bolso da camisa. Ao lado de um Fusca marrom impecável, estava Vinícius Bieger, 36 anos, de Tunápolis — um dos organizadores do evento e, sem dúvida, um dos seus entusiastas mais carismáticos.

A cena arrancava sorrisos. Quem o via ali, encostado no carro, copo na mão e pose tranquila, tinha a impressão de estar diante do primeiro dono do veículo, recém-saído da concessionária em 1974. Mas a verdade é que, mais do que figurino, Vinícius vive o espírito dos carros antigos com autenticidade. “Se for para resumir tudo o que já vivi com um Fusca, daria um livro”, dispara, rindo. E não parece exagero.

Como acontece com boa parte dos apaixonados por carros antigos, o gosto veio de casa. “99% das pessoas que apreciam carros antigos têm uma base. E geralmente essa base são os pais ou os avós. Meu pai sempre teve carro antigo, meu avô também.” O avô era taxista e teve Opala, Kombi, Passat. O pai é apaixonado por Opala. E Vinícius cresceu ouvindo histórias.

Mas há uma que o marcou profundamente: a viagem que o pai fez de Fusca até São Luís do Maranhão, cerca de 3.600 quilômetros, numa época em que estrada era aventura de verdade. “Ele levou uma semana para chegar lá. Essa história sempre me pegou. E virou um desafio para mim. Se ele foi naquela época, por que eu não posso ir hoje?”. Essa pergunta virou combustível.

O primeiro carro de Vinícius não foi um Fusca, mas um Fiat Picape 147 ano 1979, presente do avô. “Ganhei dele. E esse carro marcou minha juventude inteira.” Dos 18 aos 25 anos, foi companheiro inseparável. “Se aquele 147 falasse… meus amigos”, brinca. O carro ainda está guardado e não está à venda. “Esse não sai da família.”

Mas o Fusca era inevitável. “Naquela época, era o carro antigo que cabia no meu bolso. Popular, acessível, cheio de história. Para quem começa no mundo dos antigos, o Fusca é porta de entrada. Quase todo mundo tem uma história com ele.” O primeiro foi um modelo 1979, bordô, modelo “coleirinha”. Depois vieram outros. Hoje ele mantém um Fusca 1974.

Entre todos, porém, o que mais lhe deu fama foi o Fiat 147. “Com certeza muita gente me conhece por causa dele.” E há ainda uma Variante 1977, uma Chevrolet D-10… a lista é longa. Mas o Fusca tem algo diferente. Tem desafio. E foi atrás de desafio que vieram as viagens.

A primeira grande aventura foi rumo a Goiânia. Vinícius e o amigo Maikon Lawisch decidiram ir no estilo raiz: sem GPS. “Compramos um mapa que ia só até São Paulo. Pegamos um canetão e traçamos a rota. Não pedimos opinião para ninguém. Só fomos.” A viagem foi acompanhada nas redes sociais. E havia um detalhe inusitado: dois filhotes de pastor alemão no banco de trás, que seriam entregues a familiares.

“O maior desafio não foi o Fusca. Foi achar hotel que aceitasse dois cachorros.” O carro? Só apresentou um pequeno problema na bobina, nada que impedisse o sonho de seguir rodando. Em dois dias e meio, chegaram ao destino.

Mas se a ida a Goiânia foi aventura planejada, a viagem para Arroio do Sal foi puro improviso.

Tudo começou com uma cerveja entre amigos. “Eu e o Carlos Gossler estávamos tomando uma, final de ano, e decidimos visitar o Vander Klauck, que morava em Arroio do Sal. Eu disse: só vou se for de Fusca. O Carlos topou na hora. A gente queria se incomodar mesmo”, relata rindo. Ao contar para o pai, ouviu a sentença: “Esse Fusca não chega lá.” Foi o empurrão que faltava. “Alemão é teimoso, né?”.

No meio do caminho, a roda simplesmente se soltou. “A gente viu ela passando na nossa frente, dando tchau.” No meio do nada. A solução? Fazer churrasco. “Eu tinha levado churrasqueira e carvão. O Carlos quase enlouqueceu com a ideia, mas fizemos.” Depois veio o guincho, o conserto improvisado e a continuação da jornada.

O plano era pegar a Rota do Sol e curtir o pôr do sol. O que encontraram foi neblina às 23h30 e um Fusca sendo soldado numa oficina improvisada às 19h. “O mecânico disse: vamos soldar a roda no eixo. É o que tem. Depois você dá um jeito.” E foi assim mesmo.

“Tu só percebe a burrice que fez quando está no meio da Serra Gaúcha, sem sinal de celular, com o Fusca dando problema. Dá desespero e adrenalina ao mesmo tempo.” À meia-noite, chegaram ao destino. Depois ainda seguiram para Porto Alegre comprar peça, foram a Tramandaí, Torres e, na volta, subiram a Serra do Rio do Rastro — inteira em primeira marcha.

“Meu pai disse que o Fusca não subiria. Subiu. Devagar, mas subiu.”

É esse espírito que Vinícius leva para o Encontro de Carros Antigos em Tunápolis. Para ele, organizar o evento é mais do que alinhar veículos na rua coberta. “É resgate de memória e identidade. Coloca Tunápolis no mapa dos apaixonados por antigos. É ponte entre gerações.” Jovens descobrem o charme dos clássicos; os mais velhos revivem histórias.

E por que o Fusca continua conquistando gerações mesmo diante de tanta tecnologia? Vinícius responde sem hesitar: “Simplicidade. A mecânica é fácil, as peças são acessíveis. Qualquer curioso aprende. Isso dá autonomia. Carro moderno tem sensor para tudo. O Fusca depende de você.”

Mas há algo além da mecânica. Há afeto. “Muitas famílias têm histórias com Fusca. Viagens, primeiro carro, infância. Ele democratizou a mobilidade. Representa conquista.”

No fundo, talvez seja isso que explica a imagem que chamou atenção no encontro: um homem de 36 anos vestido como um senhor da década de 70, encostado em seu Fusca como quem guarda um tesouro. Não era fantasia. Era homenagem. Porque, para Vinícius Bieger, carro antigo não é passado. É presente em movimento. É memória rodando. É teimosia boa. É amizade forjada na estrada. É perrengue que vira história. É roda que cai e vira churrasco. É pai que duvida e filho que prova. E se depender dele, o ronco do Fusca vai continuar ecoando por muitas gerações em Tunápolis.

A mais antiga do encontro: uma FORD F-1 1951 que ainda acelera

Entre cromados reluzentes e motores que guardam décadas de história, um veículo se destacou de maneira especial no 1º Encontro de Carros Antigos: a imponente Ford F-1 1951, a mais antiga presente no evento. Ao volante, estava Paulo Ricardo Schaurich, 61 anos, morador de São Miguel do Oeste, que carrega na fala a mesma firmeza que a caminhonete demonstra na estrada.

Mais do que uma relíquia restaurada, a F-1 representa a realização de um sonho cultivado ainda na juventude. Paulo relembra com clareza os dias em que, aos 14 ou 15 anos, observava encantado uma caminhonete semelhante cruzar as ruas da cidade. “Tinha um homem aqui, o Taio Agostini, que hoje inclusive corre na Fórmula Truck. Ele tinha uma F-1 vermelha e andava para cima e para baixo com ela. Eu ficava olhando-o passar e pensava: um dia ainda vou ter um carro desses.” O tempo passou, a vida seguiu seu curso, mas a imagem da F-1 nunca saiu da memória. O que era admiração virou meta, e a meta, anos depois, virou conquista.

Curiosamente, a compra da caminhonete não aconteceu exatamente como planejado. A intenção inicial era adquirir uma F-100, modelo posterior da linha. Porém, o destino interferiu. Um amigo comprou a F-1 no Rio Grande do Sul, iniciou um processo de restauração e acabou desistindo no meio do caminho. “Ela estava toda desmontada quando eu comprei, no ano 2000. Era praticamente um quebra-cabeça espalhado”, conta.

O que poderia assustar muitos entusiastas foi justamente o que motivou Paulo. Ele iniciou ali um trabalho paciente e minucioso que duraria sete anos. A restauração envolveu mecânica, lataria, suspensão, parte elétrica, estofaria, cada detalhe recebeu atenção especial. O trabalho foi realizado em São Miguel do Oeste, com o restaurador Derli Fernandes, conhecido como “Cachorro Bixo”, profissional especializado em carros antigos. “Foi um processo longo, mas gratificante. Cada peça montada era como ver o sonho tomando forma.”

Embora a estética externa mantenha 100% do estilo original de época, a F-1 passou por adaptações mecânicas que garantem melhor desempenho e segurança nas estradas atuais. A suspensão dianteira e o diferencial são de F-1000; motor e câmbio vieram de uma Ranger. “Esse carro foi feito para rodar. Eu não quis deixar ele só para exposição. Queria usar, viajar, aproveitar.”

Paulo faz questão de explicar que preservar a essência não significa manter cada parafuso exatamente como saiu de fábrica. Para ele, o mais importante é manter viva a identidade do veículo. “A parte externa é fiel ao original. Internamente fiz algumas modificações para tornar mais confortável e seguro. Mas quem olha sabe que é uma F-1 raiz.”

A própria história da F-1 carrega importância na evolução automobilística. O modelo sucedeu ao Ford Modelo A e antecedeu a F-100, que em 1953 já apresentava mudanças significativas no desenho e na estrutura. A F-1 saiu em duas versões: seis e oito cilindros. A de oito cilindros era considerada luxo, com detalhes diferenciados no painel e acabamento. Em 1961, a F-100 passou a ser fabricada no Brasil, já com linhas mais quadradas, marcando outra fase da evolução das picapes.

Para Paulo, entender essa linha do tempo é compreender como a tecnologia evoluiu. Ele compara o desenvolvimento dos carros com a própria história da região. “O carro começou lá atrás, como uma carroça com tração animal. Depois alguém inventou o motor, e foi se aperfeiçoando. Hoje continua evoluindo, e talvez no futuro os carros nem rodem mais, talvez flutuem. Tudo é evolução.”

Paulo conta que praticamente nasceu dentro de uma oficina mecânica. O pai trabalhava em uma concessionária em São Miguel do Oeste, e desde os seis anos de idade Paulo já circulava entre ferramentas, motores desmontados e cheiro de óleo. “Ali surgiu o amor por carros. Eu cresci vendo mecânicos trabalhando, entendendo como as coisas funcionavam.”

Antes da F-1, outros clássicos passaram por sua garagem. Uma F-100 1960, um Fusca 1971, um Corcel 1971, além de modelos como SP2, Kombi e Puma. Todos deixaram lembranças e aprendizado. Hoje, ele opta por manter apenas a F-1, concentrando nela todo o cuidado e dedicação.

Desde que ficou pronta, em 2007, a caminhonete já percorreu longas distâncias. Paulo participou de inúmeros encontros pelo Sul do Brasil. Já esteve em Balneário Camboriú, Porto Alegre e Curitiba. A viagem mais marcante foi até Buenos Aires, na Argentina, para visitar a feira Auto Clássica, considerada uma das maiores do mundo no segmento de veículos antigos. “Foi emocionante. Lá você vê carros que são verdadeiras obras de arte.”

Na estrada, a F-1 chama atenção por onde passa. “Quem tem carro antigo geralmente não pega estrada, mas eu uso. Em Tramandaí, uma vez, as pessoas me fizeram parar no meio da rua para tirar foto.” A combinação de cor, estilo e imponência transforma a caminhonete em atração espontânea.

Para Paulo, a F-1 representa algo que vai além da mecânica ou da estética. “É como quando você ganha um carrinho de brinquedo no Natal e brinca com ele a infância inteira. Depois de adulto, você continua brincando, só que agora o carrinho é de verdade.”

Apesar do apego emocional evidente, ele já tomou uma decisão surpreendente: a caminhonete não permanecerá na família. O filho até comentou que poderia cuidar dela no futuro, mas Paulo prefere outro destino. “Carro antigo exige dedicação. Se não é algo que a pessoa gosta, vira obrigação.” A orientação é clara: quando ele não estiver mais aqui, que a F-1 seja doada para uma entidade beneficente e rifada, revertendo recursos para uma causa social.

Ele também reflete sobre a importância de preservar o passado de forma acessível. “A gente costuma guardar as coisas antigas para si. Mas o ideal seria guardar de uma forma que todos pudessem ver.” Mesmo em tempos de inteligência artificial e acesso digital a imagens e informações, ele acredita no valor da experiência ao vivo. “Nada substitui ver de perto, observar os detalhes, tocar na história.”

Mais do que a caminhonete mais antiga do encontro, a Ford F-1 1951 de Paulo Ricardo é um testemunho vivo de perseverança e paixão. Ela carrega o peso do aço e, ao mesmo tempo, a leveza de um sonho realizado. Cada quilômetro rodado não é apenas deslocamento, mas celebração: da história, da evolução e da memória.

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