A semana política no Brasil expôs, mais uma vez, o quanto ainda estamos distantes de um debate público equilibrado, coerente e honesto. Desde a prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, a controversa indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e a seletividade quase constrangedora de parte da imprensa brasileira formam um conjunto de episódios que, juntos, revelam o ambiente político e institucional profundamente distorcido em que o país se encontra.
Comecemos pela prisão do ex-presidente Bolsonaro. É evidente que ninguém está acima da lei e que autoridades públicas devem responder por seus atos, porém, também se espera que a lei seja aplicada com racionalidade e isonomia. Bolsonaro, que já estava condenado e inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral, agora foi alvo de prisão preventiva sob o argumento de risco de fuga, após uma vigília convocada por seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, em frente à sua residência, que aliás não causa espanto nenhum que os filhos do ex-presidente o coloquem em problemas. O Ministério Público e a Justiça interpretaram essa mobilização como indício de ameaça à ordem pública e possibilidade de evasão.
Ora, é no mínimo curioso que um ato político, ainda que infeliz, tenha sido convertido em justificativa para a prisão preventiva de um ex-chefe de Estado. Convocar apoiadores para um ato é algo discutível? Sim, talvez, mas justificar uma prisão preventiva, medida excepcionalíssima, com base nisso demonstra, mais uma vez, como a Justiça brasileira opera, por vezes, em uma lógica muito próxima da política e muito distante da técnica. O critério parece oscilar conforme o personagem envolvido.
E é justamente nesse ambiente que chega a segunda pauta da semana: a inesperada e controversa indicação de Jorge Messias, atual Advogado-Geral da União, ao Supremo Tribunal Federal. Vale lembrar que este é o mesmo “Messias” que a ex-presidente Dilma Rousseff cita em ligação a Lula em 2015, quando o petista seria, na época, nomeado Ministro da Casa Civil para evitar sua condenação e prisão, “o termo está com ‘Bessias’, ele leva lá”. Lembrando que o movimento foi frustrado, pois a Polícia Federal havia grampeado o telefone e conseguiu evitar a manobra do PT, à época. Se essa indicação soasse estranha apenas pelo perfil técnico de Messias, já seria motivo suficiente para debate, mas o problema vai muito além disso.
Lula, em 2022, repetiu categoricamente que o STF não seria “lugar para amigos” e que jamais repetiria práticas que tanto criticou em outros governos. No entanto, os fatos mostram o contrário. Primeiro veio Cristiano Zanin, seu advogado pessoal, cuja aprovação, aliás, dividiu o próprio Senado. Depois, Flávio Dino, um político de carreira, ex-governador, ex-ministro e senador recém-eleito, que em um passe de mágica se tornou ministro da Suprema Corte. Agora, a indicação de Jorge Messias, mais um nome diretamente alinhado ao presidente e ao seu círculo político, fecha um ciclo de incoerência gritante.
E não é apenas a oposição que aponta isso. Dentro do próprio Senado, a indicação foi recebida com perplexidade. Parlamentares, inclusive da base governista, reagiram com indignação diante do desprestígio a juristas mais experientes, ministros de cortes superiores e nomes com trajetória consolidada no Direito. Para completar, até o ministro Alexandre de Moraes teria demonstrado contrariedade com o nome escolhido, fato raro e politicamente significativo, dado o peso que Moraes possui na articulação institucional de Brasília.
O que se vê é uma corrosão progressiva do espírito republicano: o STF, instituição que deveria simbolizar estabilidade jurídica e independência, caminha para se transformar em prolongamento da vontade política do Executivo. E quando o próprio presidente rompe sua palavra pública, afirmando uma coisa em campanha e fazendo outra completamente diferente no poder, a consequência é óbvia: erosão de confiança.
Mas o terceiro ponto desta semana talvez seja o mais preocupante de todos: a seletividade da imprensa brasileira. A prisão de Bolsonaro domina manchetes, editoriais, programas televisivos e timelines como se fosse o único acontecimento relevante do país. E isso não significa que ela não deva ser notícia, claro que deve. O problema está na desproporção, no silêncio sobre escândalos que deveriam, no mínimo, receber o mesmo tratamento.
Enquanto a mídia dedica horas e páginas ao ex-presidente, diversos temas gravíssimos são jogados no limbo. O escândalo do Banco Master, por exemplo, envolvendo políticos influentes, juízes e suspeitas profundas sobre o sistema financeiro nacional, recebe cobertura tímida, quase envergonhada. O estado crítico dos Correios, que caminham a passos largos rumo à insolvência, praticamente não aparece nos noticiários. E o monumental fracasso da COP30, evento que deveria destacar o protagonismo ambiental do Brasil, foi simplesmente varrido para debaixo do tapete, apesar de problemas estruturais, gastos contestáveis e resultados pífios.
É curioso, para não dizer conveniente, que tantos problemas graves percam espaço justamente quando um fato politicamente útil está ao alcance dos holofotes. Bolsonaro preso é manchete fácil, rentável e polarizadora. Corrupção bancária envolvendo autoridades? Melhor evitar. Estatais à beira do colapso? Deixa para depois. Contradições do governo em suas próprias promessas? Silêncio estratégico.
Esse padrão enfraquece a democracia porque impede que a sociedade tenha acesso completo ao quadro real do país. Reduz o debate público ao que é conveniente politicamente, não ao que é relevante. A imprensa tem grande importância em qualquer democracia, mas ela também tem responsabilidades. E uma delas é não agir como braço auxiliar de nenhum projeto político, seja ele qual for.
A soma de todos esses episódios, a prisão preventiva questionável, a indicação política ao STF e o silêncio seletivo da imprensa, revela um Brasil que teima em reproduzir velhos vícios. Um país onde a lei é aplicada conforme o alvo, onde promessas de campanha evaporam diante dos interesses de poder e onde a imprensa escolhe cuidadosamente o que merece indignação nacional.
Enquanto isso, temas realmente estruturais: economia, segurança, infraestrutura e governabilidade seguem negligenciados. O país perde foco, tempo e credibilidade. E a sociedade perde, sobretudo, a confiança de que suas instituições atuem com equidade, coerência e responsabilidade. O Brasil precisa, urgentemente, de menos espetáculo e mais seriedade.
Abraços e até semana que vem!
Publicado na edição 1017 de 27 de novembro



