26.9 C
Itapiranga
segunda-feira, dezembro 8, 2025
ALESC

Histórias que inspiram: Johannes e Klara Müller

Por Douglas Orestes Franzen

Para a comunidade romena, o dia 1 de dezembro é uma data muito importante para a história e para a memória da origem de inúmeras famílias que imigraram da antiga região da Bessarábia para o Brasil. Foi no dia 1 de dezembro de 1918 que ocorreu a unificação territorial que a partir de então formou o grande território romeno, sendo incorporadas à Romênia as províncias da Transilvânia, Bessarábia e Bucovina. Esta data é celebrada como o Dia Nacional da Romênia, também chamado de Dia da Grande União. Em Itapiranga, através de Lei Municipal, esta data também é celebrada como Dia da Imigração Romena, sendo um marco da memória das inúmeras famílias que colaboraram na colonização da antiga Porto Novo, bem como Mondaí e Iporã do Oeste.

Para celebrar esta data, apresentamos a história de uma destas famílias, a família Müller, que assim como tantas outras, imigrou da antiga Bessarábia-Romênia para o Brasil. Uma história maravilhosa e inspiradora, que orgulha a comunidade romena e que às vésperas do centenário de Porto Novo, deve inspirar as gerações contemporâneas para manter viva a chama da memória e da lembrança afetiva dos pioneiros que desbravaram as terras de Porto Novo.

As origens na Bessarábia-Romênia

Quando se fala em Bessarábia precisamos vislumbrar uma longa faixa de terras localizada as margens do Mar Negro no sudeste europeu. É uma região histórica que durante milhares de anos passou por domínios de diversos povos. No início do século XIX, esta região estava sob domínio dos russos, sendo uma região praticamente inabitada. Após conquistar a Bessarábia em 1812 e selar a vitória sobre Napoleão em 1813, o Czar Alexandre I da Rússia iniciou uma política de colonização da região, convocando famílias que estivessem dispostas a colonizar o local. Assim, muitas famílias de origem alemã, búlgara e polonesa, decidiram deixar suas terras e tentar a sorte na Bessarábia. Essas pessoas fugiam da miséria e do medo das guerras na Europa central e foram atraídas pela promessa de uma terra fértil além de incentivos de impostos por parte do governo russo, isenção de alistamento militar e liberdade de prática religiosa. As colônias destinadas para as políticas de assentamento das famílias estavam localizadas mais na região central da Bessarábia, formando vilas como Krasna, Teplitz, Borodino, Beresina, Tarutino, Friedenstal.

A família Müller estabeleceu-se numa vila que viria a ser denominada de Krasna, um pequeno vilarejo que congregou grande parte das famílias de confissão católica-cristã. Ali prosperaram, geraram filhos e uniões matrimoniais que consolidaram a cultura e os valores de uma comunidade unida pelo espírito de fé e valorização das tradições familiares e comunitárias. As crianças tinham acesso à escola e os adultos, em sua maioria camponeses, movimentaram a economia e geraram prosperidade em meio à adversidade.

Como símbolo da tradição cristã, os moradores de Krasna edificaram uma cruz, que serviu de portal de entrada para o vilarejo. Uma réplica desta cruz hoje está na comunidade de Linha Santo Antônio, sendo símbolo de memória da origem das famílias imigrantes.

Panorama da Vila de Krasna, na Bessarábia

Johanes Muller nasceu em Krasna, em 31 de agosto de 1895. Seus pais foram Josef J. Muller e Amália Hein. Klara Winter também nasceu em Krasna, em 20 de novembro de 1898. Seus pais foram Philipp Winter e Emília Volk. Johannes estudou em uma escola para meninos, onde fez a formação básica. Aos 13 anos, ao participar de um ritual típico da época, onde todos os meninos plantavam uma árvore nas celebrações de Pentecostes, sofreu um acidente que afetou gravemente o seu pulmão. Como sequela, ficou muito limitada a sua condição física e de trabalho. Diante da situação, seu tio, Padre Josef Hein, o levou para uma escola de formação na Ucrânia, onde cursou Contabilidade, um grande feito para a época. Ali auxiliou nos serviços paroquiais e também desenvolveu o ofício de marceneiro. Após prestar o serviço militar, Johannes retornou para Krasna, onde foi muito venerado pela sua distinta formação, iniciando o trabalho de contador de uma cooperativa local. Klara Winter estudou em uma escola para meninas de Krasna. Como na época não era comum as meninas seguirem nos estudos, ao concluir a formação básica ficou na casa dos pais onde aprendeu os ofícios básicos considerados importantes para ser uma boa dona de casa, como cozinhas e costurar. Aprendeu de sua mãe a manipular a lã de ovelha, animal muito comum em Krasna, tecendo roupas, luvas, meias e toucas, utensílios necessários para o rigoroso inverno da região.

Quando adultos, Johannes e Klara iniciaram o namoro sob os rigorosos costumes religiosos e morais da época. Casaram-se em 10 de fevereiro de 1919, na igreja católica Skt Joseph. Em Krasna nasceram os primeiros filhos do casal: José, Jorge, Ida, Adelina e Nicodemus, além de Nikolas que faleceu prematuramente.

A decisão de imigrar para o Brasil

            A decisão de deixar a terra natal envolve uma série de fatores em que as famílias, movidas pelo desejo de um futuro melhor e de melhores condições para a vida os filhos, tiveram que tomar a difícil decisão de largar tudo que haviam construído para tentar a sorte em um local distante e muitas vezes desconhecido. Essa decisão certamente foi tomada sob muita angústia, mas no fundo, havia a certeza de que com persistência e espírito de prosperidade, a melhor opção foi abandonar a condição material da origem, mas levar consigo os valores, os costumes e a fé, que são alicerces que não se perdem facilmente.

            A vida em Krasna estava bastante difícil na década de 1920. Crises econômicas, condições agrícolas adversas, além da instabilidade geopolítica movida desejo da Rússia em recuperar o domínio sob aquela região, fizeram com que inúmeras famílias optassem por deixa a Bessarábia. A América do Sul apresentou-se como um destino possível, porque havia um imaginário acerca da riqueza natural e do povo pacífico que ali vivia. Paz, enfim, era um dos desejos dessas famílias e foi esta a busca que moveu estes imigrantes. Assim, do final dos anos 1920 até 1940, milhares de famílias que historicamente colonizaram a região, imigraram para outros países abandonando a Bessarábia.

            Acompanhando a grande leva de imigrantes, os Müller deixaram Krasna e rumaram em direção ao porto de Bremen na Alemanha, onde em 13 de julho de 1929 embarcaram no navio Madrid para atravessar o oceano em direção ao Brasil. Em 6 de agosto de 1929 chegaram a Santos. Sem muitas alternativas e muito menos dinheiro, a família optou por aceitar a ajuda de um fazendeiro, que ofereceu trabalho em uma fazenda de café no interior de São Paulo, na fazenda Monte Bela. Certamente a adaptação ao novo lar não foi fácil. A começar pelo idioma, pois nenhum deles entendia o português. Depois foi necessário adaptar-se ao clima e ao cultivo do café, práticas desconhecidas na Bessarábia. Mantiveram-se por esta localidade pelo período de dois anos, nascendo ali uma das filhas, Catarina, que acabou falecendo prematuramente. Imaginem a difícil situação da mãe Klara, ter que adaptar-se à nova terra e ainda precocemente perder uma de suas filhas. Uma dura prova de resiliência e fé.

Migrar novamente

            Estava evidente de que a família não estava feliz trabalhando na fazenda de café. Muitos dos sonhos imaginados estavam longe de serem conquistados naquelas condições, principalmente de viver em uma comunidade em que pudessem comungar de princípios religiosos tão valorizados pela família. Assim, sob orientação de Korbinian Winter, um primo da família também natural de Krasna e que já morava em Porto Feliz (Mondaí), os Müller partiram em direção ao sul em busca de um lar que pudessem considerar acolhedor. Viajaram de trem até Santa Maria-RS e de caminhão foram até Mondaí. Estabeleceram-se na localidade de Mondaizinho, como inquilinos na propriedade da família Weiss. Klara e os filhos mais novos trabalharam na propriedade e Johannes, na companhia do filho José, trabalhouna abertura de estradas. 

            No entanto, Johannes e Klara ainda aspiravam por um lugar que pudessem chamar de seu, um local seguro e acolhedor para que os filhos pudessem se desenvolver plenamente. Na época havia muita disponibilidade de colônias à venda e as famílias buscavam se estabelecer em comunidades onde pudessem manter vivos os laços da terra natal. Como muitas famílias romenas se estabeleceram em Porto Novo, principalmente famílias católicas, os Müller viram nessa colonização uma oportunidade de encontrar um lar definitivo.

            A propaganda de Porto Novo era atraente: terra fértil e comunidades católico-cristãs, com comunidades estabelecidas sob os alicerces dos costumes e dos valores tão caros para as famílias para a época. Foi esse imaginário que estimulou os Müller a comprar uma colônia na localidade de Linha Ipê-Popi. Enfim, um lar consolidado, mas na lembrança a memória de Krasna, como referência histórica originária. Por aqui nasceram os demais filhos do casal: Pedro, Izidoro e Elma. A cruz de Krasna, na Linha Santo Antônio, símbolo da memória das famílias bessarabianas-romenas.

Família Müller já estabelecida em Porto Novo

A vida em Porto Novo

            Os Müller adaptaram-se à vida local, onde puderam cultivar as tradições católicas, com uma comunidade que oferecia igreja e escola, fundamentos da vida em tempos antigos. Como dominavam a língua alemã, facilmente construíram laços comunitários. A natureza farta e a terra fértil geraram prosperidade, apesar das duras condições de vida que se apresentaram na mata fechada.

            Pela sua origem romena, não foram perseguidos em tempos de guerra, período em que os alemães foram duramente hostilizados pelo Estado. Contudo, foram coibidos de falar e cantar em alemão, além de serem censuradas quaisquer tipos de leitura nesse idioma. Foi uma dura provação para as famílias da época. Klara, inclusive, foi uma exímia cantora e o canto foi uma das formas de atenuar as difíceis condições de vida. Na vida da colônia não havia riqueza e fartura, mas não faltava comida na mesa.

            Johannes ainda sofria muito com as sequelas do acidente que sofrera aos treze anos em Krasna. Com o pulmão debilitado, o trabalho extenuante da roça exigiu demais do seu corpo. Faleceu com apenas 45 anos de idade, em 12 de maio de 1940, deixando sua esposa e filhos órfãos. Klara precisou cuidar sozinha da família e com a ajuda dos filhos mais velhos garantiu que a união familiar e os recursos necessários para a vida fossem garantidos. Após uma longa e intensa vida, Klara faleceu com 82 anos de idade, no dia 24 de abril de 1980. Johannes e Klara descansam no cemitério de Linha Ipê-Popi, deixando um legado histórico muito expressivo, que une a Bessarábia-Romênia ao Brasil, através dos herdeiros que hoje ainda mantêm viva a memória familiar. 

            Dos filhos Müller, José casou-se com Otília Becker, Jorge casou-se com Clementina Kunz, Ida casou-se com Adolfo Welter, Adelina casou-se Melchior Wagner, Nicodemus casou-se com Rufina Kunz, Pedro casou-se com Germana Pauli, Izidoro casou-se com Odete Kist, Elma casou-se com Aloísio Wagner.

Destes casamentos originaram-se inúmeros descendentes, que atualmente estão vinculados à comunidade bessarabiana-romena que ainda preserva a história e os laços com a terra natal, muitos deles inclusive, com reconhecimento de cidadania romena. Uma linda história proporcionada pelos acasos da vida, que serve de inspiração e referência de fé, uma mensagem de esperança que se vincula com a memória dos antepassados que se dedicaram para que na atualidade os descendentes possam cultivar as aspirações que os moveram no passado. Que possamos fazer jus a este legado, mantendo vivo o cordão umbilical da história com o presente e o futuro.

Irmãos Müller celebrando as Bodas de Ouro de Pedro Mueller e Germana Pauli Mueller. (Esq/dir): Jorge Muller e Clementina Kunz Muller, Adelina Muller Wagner (viúva), Ida Muller Welter (viúva), Isidoro Muller e Odete Kist Muller, Rufina Kunz Muller e Nicodemos Muller. Pedro Mueller e Germana Pauli Mueller (sentados).

Artigos relacionados

Fique conectado

6,285FãsCurtir
2,425SeguidoresSeguir
0SeguidoresSeguir
- Patrocinador -spot_img

Leia também