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segunda-feira, dezembro 8, 2025
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CRISE DO LEITE NO BRASIL ACENDE ALERTA

Entidades pedem ações urgentes

O setor leiteiro brasileiro enfrenta um dos momentos mais críticos da última década. Diante da combinação de alta produção nacional e aumento expressivo das importações de lácteos, os preços pagos aos produtores despencaram, colocando em risco a sobrevivência de milhares de famílias rurais e a estabilidade da indústria.

Em comunicado conjunto divulgado nesta semana, o Conselho Paritário de Produtores e Indústrias de Leite de Santa Catarina (Conseleite-SC), o Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Estado de Santa Catarina (Sindileite-SC) e a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc) manifestaram “profunda preocupação com o agravamento da crise no setor leiteiro brasileiro” e cobraram ações imediatas do Governo Federal para evitar um colapso.

Excesso de oferta e importações pressionam o mercado

O comunicado destaca que o país vive um cenário de excesso de oferta de leite, resultado de uma safra recorde impulsionada por condições climáticas favoráveis e aumento da produtividade. Somado a isso, o volume de importações de leite em pó e queijo muçarela, especialmente provenientes de Uruguai e Argentina, cresceu de forma significativa ao longo do ano.

Essa combinação tem provocado uma forte queda nos preços internos, prejudicando tanto os produtores quanto as indústrias. Segundo o Conseleite-SC, a situação ameaça a sustentabilidade de toda a cadeia produtiva, a qual é estratégica para a segurança alimentar, o emprego rural e a economia nacional.

Entre as medidas urgentes solicitadas ao governo, as entidades catarinenses propõem: suspensão temporária das importações de leite em pó e queijo muçarela do Mercosul por, pelo menos, seis meses; Auditoria nos Certificados Sanitários Internacionais (CSI) e nos critérios de qualidade dos produtos importados, com paralisação das compras externas até a conclusão das verificações; Compra pública de leite em pó e derivados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), como forma de reduzir o excedente interno e estabilizar o mercado; Harmonização dos sistemas de inspeção (SIF, SISBI, SIE e SIM), para garantir padrões sanitários equivalentes em todo o território nacional; Revisão da carga tributária do setor em Santa Catarina, buscando igualdade competitiva com outros estados; Fiscalização rigorosa da rotulagem dos produtos importados, assegurando conformidade com a legislação brasileira.

Setor estratégico pede equilíbrio

As entidades reforçam que o leite é um dos pilares da economia catarinense, com forte presença em pequenas e médias propriedades rurais. O setor gera milhares de empregos diretos e indiretos, movimentando economias regionais e garantindo o abastecimento interno.

“O leite é estratégico para a segurança alimentar do país. Precisamos de medidas rápidas e equilibradas para restabelecer a sustentabilidade do setor”, destaca o comunicado assinado pelo Conseleite-SC, Sindileite-SC e Faesc.

Especialistas apontam que, sem uma intervenção coordenada, o cenário tende a se agravar nos próximos meses, com possíveis encerramentos de atividades, queda na produção interna e dependência crescente de importações.

O apelo das entidades de Santa Catarina ecoa também em outros estados produtores, que enfrentam os mesmos desafios e defendem uma política nacional de estabilização do mercado leiteiro, capaz de equilibrar oferta, demanda e competitividade frente ao Mercosul.

Produtores apelam por socorro

O cenário crítico do leite tem desanimado produtores: “A situação do leite está ficando cada vez mais difícil. No mês passado ainda recebi R$ 2,30 por litro, e a previsão para este mês é de mais uma queda de R$ 0,15. No fim, quem sempre paga o preço é o produtor. A gente trabalha duro, muitas vezes no prejuízo, mas não pode baixar a cabeça. Precisamos seguir firmes e acreditar que dias melhores virão. Se as coisas continuarem nesse ritmo, muitos produtores e até agroindústrias não vão aguentar, e isso é muito preocupante. É lamentável ver o quanto o nosso trabalho vem sendo desvalorizado, especialmente pela falta de apoio do governo. Eu ainda consigo dar um jeito, apertar um pouco mais e tentar resistir a essa crise. Mas e aqueles que têm dívidas, que investiram para melhorar a produção e agora precisam honrar esses compromissos? Como vão conseguir se manter? Essa é a nossa grande preocupação hoje”, desabafou um produtor a nossa reportagem.

O desânimo é visível no campo. Muitos produtores estão reduzindo o número de vacas em lactação, cortando custos e até desistindo da atividade, que durante anos foi o sustento de suas famílias. Em várias regiões do estado, propriedades que antes produziam centenas de litros por dia agora operam no limite, apenas para cobrir despesas básicas.

“Não é só uma questão de preço, é de sobrevivência”, resume o produtor. “Cada centavo a menos por litro representa uma conta que deixa de ser paga, uma família que pensa em deixar o campo, um jovem que desiste de seguir na atividade dos pais. O leite não é apenas um produto, é parte da nossa história e da identidade de quem vive no interior,” finalizou o produtor de leite.

Há relatos de produtores que irão receber menos de R$ 2,00 por litro no pagamento deste mês, relativo à produção de outubro. As quedas, do mês de junho até o momento, chegam a quase 1 real por litro entregue.

Enquanto as lideranças do setor cobram medidas concretas do Governo Federal para conter o colapso, os produtores seguem na incerteza entre o amor pela terra e o peso das contas que não param de chegar. A esperança, dizem eles, é que a voz do campo finalmente seja ouvida antes que o silêncio das ordenhas vazias se torne símbolo de uma crise sem volta.

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