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quinta-feira, janeiro 8, 2026
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SORRISOS QUE UNEM CONTINENTES: Tunapolitana participa de missão na África

Por trás da empresária bem-sucedida que hoje comanda a Big John Cervejaria, em Descanso, há uma mulher movida por um propósito que vai além do empreendedorismo e das conquistas profissionais. Diovana Strieder Schacker, natural de Tunápolis, carrega no coração o sentimento de quem encontrou um sentido profundo na palavra “servir”. Recentemente, ela realizou um sonho antigo: participar de um projeto missionário fora do Brasil. O destino escolhido foi Moçambique, na África, onde a solidariedade ultrapassa fronteiras e a fraternidade assume o papel de esperança.

“Trabalhei por anos na área da saúde e o contato diário com o cuidado ao próximo alimentou em mim um propósito maior: o de servir. Eu queria estender essa ajuda para além das fronteiras do meu próprio país”, conta Diovana.
O sonho, que parecia reservado para um capítulo distante da vida — talvez quando as filhas estivessem mais crescidas —, se tornou realidade antes do previsto, e de uma forma que ela descreve como “bênção e milagre”.

Um sonho com raízes e limites

A ideia de uma missão internacional não surgiu de um impulso momentâneo. Era um desejo amadurecido com o tempo e nutrido por uma consciência muito clara: a de que amor e responsabilidade também têm fronteiras.
“Eu sempre tive um pré-requisito muito firme comigo mesma: a minha missão seria em um local onde eu pudesse voltar para casa. Precisava equilibrar o desejo de ajudar com o meu amor e compromisso com a minha família. Por isso, nunca quis me expor a zonas de guerra ou a regiões com surtos de doenças contagiosas. O risco de não voltar era uma linha que eu não queria cruzar.”

Diovana chegou a se inscrever em organizações de renome mundial, como Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha e ACNUR. Mas o destino escolheu outro caminho — e foi assim que ela conheceu a Fraternidade sem Fronteiras (FSF), uma organização humanitária internacional com projetos espalhados em nove países.

O chamado da solidariedade

A Fraternidade sem Fronteiras nasceu com o propósito de levar esperança e dignidade a quem vive em situações extremas de vulnerabilidade. Atua em países da África, como Madagascar, Moçambique e Malawi, e também no Brasil e nos Estados Unidos. Seus projetos abrangem desde a alimentação e moradia digna até a formação profissional, a agricultura e o acesso à educação.

Diovana se identificou especialmente com o Projeto Acolher Moçambique, que atende milhares de crianças e famílias no país africano. “O projeto se encaixava exatamente no que eu buscava: havia uma necessidade real de ajuda, mas não era uma região de conflito ou de doenças contagiosas. Além disso, o trabalho da Fraternidade vai muito além da assistência; é um compromisso com o desenvolvimento e a autonomia das comunidades”, explica.

Ela lembra de ter se impressionado com a diferença entre a pobreza brasileira e a miséria africana. “No Brasil existe fome, sim, mas ainda há uma rede mínima de amparo, ainda existe o SUS, escolas, programas sociais. Na África, a fome é cruel. A miséria é impensável. Eu ouvia falar disso, mas não podia imaginar a realidade até ver com meus próprios olhos.”

A chegada a Moçambique

A caravana que levou Diovana a Moçambique permaneceu duas semanas no continente africano, mas as impressões deixadas nesse breve período permanecerão para sempre. O grupo ficou sediado em Muzumuia, uma das bases da FSF. “A recepção foi algo profundamente marcante. As ‘mamas’, como são chamadas as mulheres que trabalham no centro, nos receberam com música, dança e abraços. Era um acolhimento tão genuíno, tão cheio de amor, que parecia impossível acreditar que estávamos em uma das regiões mais pobres do planeta.”

Em meio a tambores, vozes e sorrisos, uma cena marcou o início da experiência: “Uma criança bem pequena correu na minha direção e se jogou nos meus braços. Ficou ali, no meu colo, como se me conhecesse há muito tempo. É difícil contar isso sem me emocionar. Aquela pureza, aquele gesto simples… era como se o amor, ali, fosse uma linguagem universal.”

Pintando a esperança

A missão de Diovana integrava a Caravana de Artes – Arte sem Fronteiras, voltada a levar cores, música, oficinas e alegria às comunidades atendidas pela FSF. Durante os dias em Muzumuia, ela e os voluntários pintaram paredes externas do centro, salas de aula e, em especial, a biblioteca. “Fizemos uma pintura inspirada no Pequeno Príncipe, só que lá o menino foi retratado como negro. Ficou lindo, uma representação de pertencimento, de identidade.”

Além das pinturas, o grupo ofereceu oficinas de canto, flauta doce, crochê, missangas, fotografia e marcenaria. Cada gesto tinha um propósito: despertar a criatividade, valorizar talentos e fortalecer o sentimento de comunidade.

O centro de Muzumuia atende cerca de 600 crianças por dia. “Estávamos sempre rodeados por elas. Queriam abraços, colo, atenção. Por menor que fosse o gesto, a resposta era gigante. Quando tirávamos uma foto, era uma festa. Eram muitas crianças para poucos voluntários, então cada olhar, cada sorriso, valia ouro.”

Entre música e silêncio

Os dias eram intensos e cheios de atividades, mas foi durante uma noite silenciosa, sob o céu africano, que Diovana viveu um dos momentos mais simbólicos da viagem. “Estávamos em uma aldeia sem eletricidade. Um colega começou a tocar violão, e as únicas luzes vinham da lua e das estrelas. De repente, algumas crianças se aproximaram, curiosas. Queriam participar, cantar com a gente.”

Sem saber o que cantar, ela lembrou de uma música infantil em alemão, Aramsamsam, cheia de gestos e brincadeiras. “Cantei uma vez, e na segunda, todas as crianças já estavam acompanhando. Foi mágico. Elas nunca haviam ouvido aquela música, mas participaram com tanta entrega que parecia que fazíamos parte de uma mesma infância.”

A face dura da fome

Nem tudo, porém, foi leve. Durante a missão, o grupo viajou até Chicualacuala, uma das aldeias mais áridas e isoladas do país. O cenário era de cortar o coração: terra rachada, calor de 40°C durante o dia e frio intenso à noite. Não havia eletricidade, nem rede de água. A última chuva havia caído há mais de doze anos.

Ali, a Fraternidade consegue distribuir apenas três refeições por semana — todas preparadas com alimentos doados e enviados de outras regiões.

Mesmo diante de tamanha escassez, o que mais impressionou foi a dignidade com que aquelas pessoas enfrentavam a vida. “Quando a comida foi servida, as crianças se sentaram por ordem de tamanho. Os menores primeiro, depois os maiores. Quando ofereci comida a uma criança mais velha, ela recusou, dizendo que só podia comer depois dos menores. Os idosos ficam no fim da fila e só comem se sobrar. E quando não sobra, eles simplesmente aceitam. Não reclamam. Não se queixam. Apenas aceitam. É impossível não se questionar sobre o que realmente significa ter e faltar.”

O povo da gratidão

Três palavras sintetizam a essência do povo moçambicano para Diovana: alegria, disciplina e gratidão. “Eles são gratos por tudo. Cantam para agradecer. E fazem isso com um brilho nos olhos que desarma qualquer um. Nós vamos com a ideia de ensinar, mas acabamos aprendendo muito mais.”

Na despedida, uma menina se aproximou e fez uma pergunta que atravessou o coração da voluntária: ‘Você vai voltar?’
“Na hora, fiquei sem palavras. Mas disse que sim. Porque quero, porque preciso. Não tem como ‘desver’ o que vi, nem ‘dessentir’ o que senti. Essa experiência mudou a forma como enxergo o mundo e a mim mesma.”

Diovana planeja participar de novas missões — seja na África, no Brasil ou em outro país. O importante, segundo ela, é continuar caminhando na direção do bem. “Agora que conheço o poder transformador da fraternidade, não consigo mais ficar parada. Quero seguir ajudando, levando cor, amor e presença onde for possível.”

Uma lição que atravessa fronteiras

De volta ao Brasil, Diovana trouxe na bagagem lembranças, aprendizados e uma nova forma de olhar para o mundo. “Se as pessoas soubessem o quanto faz bem fazer o bem, o fariam até por egoísmo”, diz, parafraseando Santo Agostinho.

“Entre o nascer e o pôr do sol de Moçambique, entre as mãos pintadas de tinta e os abraços das crianças, aprendi que o que realmente dá sentido à vida é a capacidade de enxergar o outro — e de estender a mão, mesmo que por um instante, além das próprias fronteiras”.

A jornada de Diovana é um lembrete de que a solidariedade não conhece limites geográficos. Que o amor pode se multiplicar mesmo em meio à escassez. E que há, em cada ser humano, um continente inteiro de empatia esperando ser despertado.

Matéria completa na edição 1013 de 30 de outubro de 2025.

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