Começo este artigo citando alguns nomes: Antônio Carlos Konder Reis, Hercílio Luz, Atilio Fontana, Nereu Ramos, Vidal Ramos, Luiz Henrique da Silveira, Irineu Bornhausen, Casildo Maldaner, Lauro Müller, Celso Ramos, Vilson Pedro Kleinubing, Esperidião Amim. Mas por que cito os nomes acima e o que representam? Todos foram muito importantes no desenvolvimento histórico do estado. Dentre empreendedores, estadistas, militantes, professores, prefeitos e governadores, todos também foram senadores da República em algum momento por nosso glorioso estado.
Vejam bem: nomes de peso, catarinenses arrojados, que faziam e fazem jus ao povo ordeiro e trabalhador do nosso estado, sem distinção partidária. Quando cito os nobres senadores acima, quis relembrar o peso do cargo. A menos de um ano da eleição federal, em que iremos eleger dois senadores da República, temos um forasteiro querendo surfar no sobrenome aqui no estado. Refiro-me a Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, vereador pelo Rio de Janeiro. Faz parte de uma família toda de políticos, e provavelmente sabia onde ficava Santa Catarina apenas por ver no mapa. Quando o nome começou a ser cogitado, muitos imaginavam que seria uma piada de muito mau gosto, mas, nos últimos dias, vimos que a intenção é real, pois ele começou a andar pelo estado, acompanhado da deputada federal Carol de Toni, que também quer ser candidata ao mesmo cargo.
Carol conduziu Carlos Bolsonaro em agendas em vários municípios catarinenses, inclusive na nossa região. E, ainda mais ridículo, aparecem prefeitos daqui abraçados no forasteiro. Sim, nosso Oeste e Extremo-Oeste, que tanto reclamam de protagonismo, dando palco ao vereador carioca, cujo currículo cabe numa caixa de fósforo. Passa a ser inevitável fazer uma reflexão mais profunda sobre o papel da representatividade política catarinense.
Santa Catarina sempre teve líderes de expressão nacional, que surgiram do chão do estado, conhecendo suas realidades, dificuldades e potencialidades. Políticos que falavam com autoridade sobre o Oeste produtivo, o Vale industrial, o Litoral turístico e o Norte tecnológico, porque aqui viveram, construíram e governaram em meio a esses contextos. O movimento é perigoso, pois descaracteriza a política estadual, em que figuras externas tentam se aproveitar da força eleitoral catarinense, usando o sobrenome ou a imagem de terceiros para projetar uma candidatura descolada das necessidades reais da população local.
Quando coloco no título “eleitor catarinense à prova”, refiro-me justamente ao poder do voto. Candidato ele será, mas eleito se o povo permitir tal escárnio. Santa Catarina precisa de líderes com voz firme, capazes de defender nossos agricultores, nossas cooperativas, nossa infraestrutura e nossa identidade produtiva. O estado que construiu sua força a partir do trabalho e da seriedade não pode se deixar enganar por discursos prontos ou por promessas embaladas em marketing político. A defesa de Santa Catarina não se faz em palanque improvisado, mas com presença, coerência e compromisso. O Senado precisa voltar a ser casa de estadistas, daqueles que, como os nomes citados, deixaram legado e orgulho ao povo catarinense.
Lembrando ainda que já temos um senador importado, que praticamente desapareceu após a eleição de 2022 e inclusive corre risco de cassação. Dias atrás, este mesmo senador esteve presente num município da região e destacou que não o conhecia — e mesmo assim havia sido o mais votado. Difícil compreender o eleitor. Talvez, se perguntarmos aos eleitores dele, nem saibam dizer por que votaram e quem ele era no momento da eleição. Decidiram seguir uma onda, que, por sinal, está fazendo muito mal ao estado. Importante refletir.
E é justamente por isso que a representatividade política importa tanto: quando o estado não tem voz forte, setores produtivos inteiros ficam desamparados, como acontece hoje com o mercado do leite em Santa Catarina. Segundo reportagem do MilkPoint, respeitado portal da pecuária leiteira brasileira, em 2024 o Brasil produziu 35,7 bilhões de litros de leite, o maior volume da série histórica. O dado não somente chama atenção pelo recorde, mas também pelo fato de que ele ocorreu ao mesmo tempo em que o número de vacas ordenhadas caiu para 15,1 milhões, o menor patamar desde 1980. Na prática, isso significa um avanço expressivo em produtividade: a média nacional subiu para 2.632 litros/vaca/ano, um salto de 4,3% em relação a 2023.
Santa Catarina, quarto maior produtor de leite do Brasil, concentra sua produção nas regiões Oeste e Extremo-Oeste, principalmente em pequenas e médias propriedades que dependem do leite como principal fonte de renda. Apesar dos avanços tecnológicos e do aumento da produtividade, os produtores enfrentam grave crise devido à queda no preço pago pelo leite e ao aumento dos custos. A principal causa é a importação de leite da Argentina e do Uruguai, que chega ao país com preços mais baixos, levando laticínios a reduzir a compra local.
O impacto social é grande: queda de renda, enfraquecimento do comércio, êxodo rural e prejuízos à economia municipal. Cooperativas buscam reagir com valorização da produção regional e produtos de maior valor agregado, mas, sem políticas públicas e medidas de proteção, o estado corre o risco de perder parte importante de sua base produtiva leiteira.
O mercado leiteiro exige uma Lei de Antidumping em caráter emergencial. A CNA (Confederação Nacional da Agricultura) notificou o governo federal solicitando um decreto antidumping, porém teve o pedido indeferido. O governo alega que quem deveria solicitar tal medida seriam as próprias indústrias, algo utópico, pois estas conseguem comprar o leite no mercado externo mais barato do que no mercado interno, então jamais teriam interesse na criação de uma lei ou decreto antidumping. Um retardo gigantesco da nação. Durante muitos momentos da história, o país teve leis que protegiam a indústria nacional em detrimento da concorrência desleal estrangeira. Até mesmo na Primeira República, entre 1891 e 1930, o Brasil tinha medidas antidumping.
Encerrando, fica o alerta: quando o campo sofre, o estado enfraquece; quando nossos representantes se calam, a população paga a conta. Santa Catarina precisa de representantes que compreendam a realidade do nosso estado, que defendam quem produz e que tenham coragem de enfrentar o que é injusto. Que o eleitor catarinense esteja, mais do que nunca, à altura da sua própria história.
Abraço e até semana que vem!
*Antidumping: Medida aplicada pelo país importador, ao cobrar um imposto extra sobre um determinado produto e/ou sobre uma empresa de um determinado país exportador com o intuito de tornar o seu preço mais próximo do “valor normal” ou de remover o dano aos produtos similares da indústria doméstica no país importador.
Publicado na edição 1012, de 23 de outubro de 2025.



