O avanço da inteligência artificial (IA) já deixou de ser apenas um tema de ficção científica para se tornar parte do cotidiano geral da sociedade e, no contexto político, gera grande preocupação. Do uso de programas para segmentar eleitores em campanhas até a criação de conteúdos falsos com aparência real, a política brasileira começa a enfrentar dilemas que podem comprometer a própria democracia. Se, por um lado, a tecnologia traz eficiência e inovação, por outro, escancara riscos profundos de manipulação, concentração de poder e perda de transparência.
No Brasil, a preocupação com o impacto da inteligência artificial é iminente. O Projeto de Lei 2.338/2023, em tramitação no Congresso, tenta estabelecer um marco regulatório. No entanto, existe o perigo de que a regulação se torne um ato autoritário: em nome da segurança, o Estado pode controlar o fluxo de informações e, consequentemente, limitar a liberdade de expressão. Trata-se de uma faca de dois gumes e de um risco real em sociedades marcadas pela polarização política e instituições ainda frágeis.
Outro problema grave está na manipulação eleitoral. O uso de IA para criar conteúdo segmentado, ou seja, com lapsos de informações reais, reforça bolhas informacionais e intensifica a polarização. Além disso, os deepfakes (imagens e/ou sons humanos simulados por IA) podem distorcer fatos e fabricar escândalos, influenciando a opinião pública de forma quase invisível. Em períodos eleitorais, uma mentira “bem-produzida” e amplificada por redes sociais pode ter mais impacto que qualquer programa de governo.
A questão da privacidade também não pode ser ignorada. Ferramentas de IA dependem da coleta massiva de dados, muitas vezes sem consentimento claro dos cidadãos. Essa vigilância digital não apenas ameaça a autonomia individual, mas pode abrir caminho para discriminações automatizadas, como já apontam especialistas em ética digital. Além disso, sistemas de IA desregulados podem reproduzir preconceitos contra grupos historicamente marginalizados, reforçando desigualdades sociais em vez de reduzi-las.
Cresce ainda o risco de um governo sintético, em que decisões cruciais passam a ser orientadas por sistemas opacos e inacessíveis a uma análise pública. O perigo não está apenas no mau uso político, mas também na falta de responsabilidade: quando uma máquina erra, quem deve ser responsabilizado? Esse “apagamento da autoria” pode corroer os princípios básicos da democracia representativa. Diante disso, a regulação da IA é necessária, mas deve ser feita com cautela. Não basta copiar modelos estrangeiros ou adotar leis simbólicas: é preciso garantir transparência nos programas, auditorias independentes e participação da sociedade civil no debate. A discussão não é apenas técnica, mas ética e política. Quem controla a tecnologia controla, em grande medida, o futuro da democracia.
Portanto, o Brasil precisa se antecipar. A educação digital, a checagem de fatos e a criação de mecanismos para detectar conteúdos falsos devem caminhar lado a lado com a legislação. Mais que nunca, a inteligência artificial exige inteligência política: sem vigilância da sociedade e regras claras, corremos o risco de trocar a manipulação humana por uma manipulação algorítmica ainda mais perigosa. A democracia não pode ser terceirizada para as máquinas.
A democracia não pode ser feita por máquinas; por isso, cada vez mais, as pessoas devem propor diálogos e fazê-los evoluir. Semana passada abordei de forma sucinta a criação da Federação União Progressista Brasileira, que uniu dois partidos em federação, PP e União Brasil. Em outro momento também já expliquei a diferença entre fusão e federação partidária. A diminuição de partidos passa a ser o eixo crucial do melhoramento do sistema político. Buscar o diálogo e chegar a um ponto de equilíbrio entre centro-esquerda, centro e centro-direita é essencial para que nosso país volte a prosperar. Diferenças existem entre todos os partidos, mas não podemos, em hipótese alguma, deixar que as divergências se sobreponham ao foco do sistema público, que é o progresso da nação e a diminuição das desigualdades sociais. Já diz a bandeira: “ordem e progresso”. A ordem tem se perdido há um bom tempo, mas sua ausência também barrou o progresso.
No lançamento da nova federação citada acima, a presença marcante de 10 governadores e outras figuras de diversos partidos indica a força que o bloco representa na esfera política. Chamou muita atenção o ex-ministro da Fazenda e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes. Em sua fala, abordou o caos econômico em que o Brasil se encontra, com os piores índices de crescimento da história desde que a República Brasileira foi estabelecida em 1891. Nos bastidores, existem movimentos para atrair Ciro à nova federação e disponibilizar seu nome como candidato à vice-presidência numa possível chapa com Tarcísio de Freitas.
Os dois, inclusive (Ciro e Tarcísio), trocaram um forte e longo abraço no evento, o que nitidamente escancara uma aproximação. O cálculo eleitoral é muito simples: somar Sudeste e Nordeste liquidaria a eleição, tendo em vista que o Sul e o Centro-Oeste também, nas últimas eleições, deram vitórias muito amplas à centro-direita, desde 2014, quando Aécio Neves perdeu por uma margem mínima a eleição para o PT. Uma suposta chapa Tarcísio + Ciro teria muita competitividade, pois une a gestão técnica de Tarcísio e o forte discurso combativo de Ciro, além da força territorial já mencionada (Sudeste + Nordeste) e, com certeza, o apoio do Centrão.
Também chamou atenção a presença, no mesmo evento, do nosso governador Jorginho Mello, que fez um discurso muito bom, destacando a força dos catarinenses, um claro recado a Carlos Bolsonaro, que aspirava concorrer ao Senado por nosso estado. Jorginho sabe que, para ter o apoio da federação, vai precisar abrir espaço para o senador Esperidião Amin buscar a reeleição e provavelmente ceder a vaga de vice também — um cenário que se desenha bem encaminhado, o que acaba isolando o prefeito João Rodrigues na disputa pelo governo do estado.
Publicado na edição impressa 1004 de 28 de agosto



