Durante muitos anos, sabia-se que o brasileiro era desinteressado por política. Em muitas pesquisas, às vezes nem 30% se dizia preocupado com quem seriam seus governantes, ou mal sabia quem eram. Parecia que, de fato, o contexto político pouco mexia com a população em geral. As eleições sempre eram disputadas, às vezes acirradas, com emoções, embates e discussões, porém isso se reservava exclusivamente ao período eleitoral. Nos anos 1990 e 2000, a política era discutida de forma lenta e com informação restrita através do rádio, televisão e jornais ou revistas impressas. Esses canais informavam a grande massa, porém tinham seu conteúdo controlado por grupos de empresários muitas vezes ligados a partidos políticos, que moldavam as informações.
Voltando um pouco mais no tempo, entre as décadas de 1960 e 1980, ocorreu um intenso movimento migratório do campo para as áreas urbanas, que mudou profundamente o país. Aproximadamente 27 milhões de pessoas deixaram as zonas rurais, elevando a proporção da população urbana de 44% em 1970 para 66% em 1980. Esse processo alterou a composição do eleitorado, concentrando, nas periferias, grupos marcados por baixa escolaridade e difícil acesso à informação.
Diante da situação, podemos afirmar que o perfil do eleitor brasileiro mudou, mas com certeza não melhorou. De “apolitizado” virou fanático de falácias e teorias de rede social, que muitas vezes não condizem com a realidade. O cenário eleitoral foi se tornando mais acirrado e polarizado. Em 2014, Dilma conquistou a reeleição por uma diferença muito pequena, o que levou Aécio Neves a contestar o resultado. Já em 2018, após o impeachment da petista, alguns sinais de reestruturação apareceram no governo Temer, que aproveitou sua impopularidade para tomar medidas impopulares e salvar a economia. Temer nem concorreu à reeleição; nesse cenário, Bolsonaro derrotou Haddad, que recebeu o apoio de Lula mesmo estando preso. A partir de 2018, começou um movimento de violação das massas em duas vertentes: você amava uma ou outra, e logo deveria odiar a contrária, o que segue assim, em parte considerável, até hoje.
Me parece que estamos próximos do estopim moral, social, político e humano da situação de polarização. O fanatismo aliado à loucura atingiu limites estupendos, primeiro, em 2019, quando se tirou um condenado da cadeia, num movimento muito estranho do STF (já oriundo da desavença com o então presidente Jair Bolsonaro) para esse mesmo cidadão vencer a eleição presidencial em 2022 e voltar ao cargo. Quem perdeu não se conformou e fez uma série de bagunças, movimentos, negações e absurdos que culminaram na atual prisão domiciliar do ex-presidente Bolsonaro. Quem o prendeu também está errado pelo exagero, não somente neste episódio, como em muitos outros, exagera tanto que perde a razão. Movimentos estrangeiros são manipulados, prejudicando toda a cadeia econômica em prol de uma família. Quem está no poder e poderia resolver também não o faz, por ego e negação de interlocução estrangeira em virtude de ideologias diferentes e redes de amizades. Falência moral e política total.
Acima, fazendo referência às tarifas impostas pelos Estados Unidos, na sinuca de bico entre o ex-presidente Bolsonaro, amigo de Donald Trump, e o atual presidente Lula, que não fala com ele por conta disso e de outros pontos ligados à ideologia petista, entra o papel fundamental do atual vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. Foi ele quem negociou com o governo americano, ouviu os diversos setores empresariais brasileiros, manteve um elo de interlocução entre diferentes grupos parlamentares e conseguiu preservar o equilíbrio econômico, ao menos por enquanto.
Já que falei de vice, quero também propor uma reflexão sobre o quão importante passou a ser este papel. Geralmente sem holofotes, não aparece tanto quanto o titular, mas está sempre dando suporte e intermediando questões essenciais, seja em qual esfera for. Mesmo na nossa região vemos vice-prefeitos trabalhando muito, em pastas estratégicas e essenciais para o funcionamento do setor público, importante reconhecer a dedicação e o esforço de quem ocupa este cargo.
Voltando ao assunto da polarização, quero fazer menção à segunda parte do título: o momento da terceira via. Mas o que seria, em tese, a terceira via? Alguém que abandone totalmente os dois lados da atual polarização? Acho muito difícil. A terceira via deve surgir, muito provavelmente, com alguns reflexos, mas com nomes oxigenados, com certa experiência no Executivo, embora nunca tenham ocupado o Palácio do Planalto. Pelo que o cenário aponta, de partidos mais ao centro ou centro-direita, não que não possa surgir da centro-esquerda, mas hoje não vejo nenhum nome ganhando força nesse campo, a não ser o próprio presidente Lula.
O atual presidente saiu muito fortalecido com a bagunça começada nos EUA. Basta acompanhar as pesquisas: Eduardo Bolsonaro tentou se projetar com os movimentos em solo americano, mas acabou fazendo Lula ressurgir, depois de ter o governo mal avaliado em várias pesquisas seguidas, agora volta a despontar. Um grande tiro no pé da direita, reforçado pelo presidente do Partido Liberal, que proibiu integrantes da legenda de manifestar apoio a pré-candidaturas de outros presidenciáveis da centro-direita. Pelo visto, o naufrágio será coletivo.
Na semana passada, também num movimento mal pensado, parlamentares da oposição fizeram uma espécie de “motim”, com fitas sobre a boca, tomando a mesa diretora e coibindo os trabalhos rotineiros da casa. Uma verdadeira bagunça. Resultado: o líder da oposição, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), pediu desculpas dias depois pelos episódios. Uma lista extensa de deputados deve sofrer punições, incluindo a suspensão de mandatos, e há deputados catarinenses na lista, que logo deve ser divulgada. Resultado efetivo: nenhum, apenas bagunça.
Publicado na edição impressa 1002 de 14 de agosto



