Por décadas, os Estados Unidos foram vistos como o epicentro do comércio global, ditando regras, abrindo mercados e moldando rotas comerciais. No entanto, o século XXI vem marcando uma inflexão silenciosa, mas profunda: a China passou a ocupar o espaço que os americanos, por arrogância ou falta de visão estratégica, deixaram aberto.
Em 2000, a diferença entre as duas potências era abismal. Os EUA movimentavam cerca de US$ 2 trilhões em comércio internacional, enquanto a China mal alcançava US$ 474 bilhões. Mas a história virou, como elucida a imagem ao final da coluna, em 2024 o comércio exterior chinês superou os US$ 6,1 trilhões, enquanto os EUA estagnaram pouco acima dos US$ 5,3 trilhões. Não foi coincidência. Foi projeto.
O que explica essa virada? Primeiro, a China assumiu para si o papel que os Estados Unidos se recusaram a manter: o de potência produtiva. Enquanto Washington transferia indústrias para o exterior e apostava no consumo como motor do crescimento, Pequim investia pesado em infraestrutura, inovação e acordos comerciais estratégicos. O resultado é que, hoje, a China é responsável por quase 29% da produção manufatureira global, um domínio que não se constrói da noite para o dia.
Além disso, o projeto geopolítico chinês, como a Iniciativa do Cinturão e Rota, levou infraestrutura a dezenas de países em desenvolvimento, abrindo mercados e criando interdependência. Em vez de impor sanções ou tarifar parceiros, como os EUA têm feito, a China ofereceu crédito, construções e conexões logísticas. Firmou o maior acordo de livre comércio do mundo (RCEP), ampliou laços com América Latina, África e Europa, e tornou-se o maior parceiro comercial de mais de 120 países, inclusive o Brasil.
Enquanto isso, os Estados Unidos caminharam na contramão. Optaram pelo protecionismo e entraram em uma guerra comercial que não resolveu o déficit, nem reduziu a dependência de produtos chineses. As tarifas, embora barulhentas, serviram apenas como paliativo político. O problema, de fato, é estrutural: os EUA abdicaram de seu protagonismo produtivo, ao passo que a China o consolidou.
Criticar a ascensão chinesa de nada adianta. Mais sensato seria olhar para o espelho e perguntar: por que os Estados Unidos deixaram a liderança escapar? Em um mundo cada vez mais multipolar, onde a influência se mede não apenas pelo poder militar, mas pela capacidade de gerar valor, coordenar cadeias produtivas e atrair parceiros, a China se posicionou com firmeza. E o mundo respondeu.
As tarifas que o presidente norte-americano distribui a praticamente todos os parceiros comerciais, incluindo o Brasil, visam recuperar parte do protagonismo, além de reforçar um protecionismo intenso aos produtos internos dos EUA. A capacidade de negociação de cada país determinará a nova configuração comercial internacional. Brigar com as tarifas de nada adianta, elas irão vigorar. A que valor? Isso dependerá da capacidade de negociação brasileira, quanto menos, melhor.
Tendo em vista que o tarifaço, de longe, não foi tão intenso como previsto, no dia em que entrou em vigor cerca de 700 produtos brasileiros foram retirados da lista e continuam isentos para comercialização norte-americana. Trump tentou jogar, em parte conseguiu. De longe, não como queria. Com nós, brasileiros, a família Bolsonaro? Bom, foi um bom vetor oportunista que o presidente estadunidense encontrou no momento. Ninguém pode ser ingênuo de imaginar que a economia mundial seria movida em face de uma família brasileira.
Falando na família Bolsonaro, na segunda, dia 04, o ministro Alexandre de Moraes determinou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, por descumprimento das medidas preventivas impostas cerca de 10 dias antes. A decisão colocou mais combustível numa chama perigosa. Dos EUA vieram sanções a ministros do STF, como bloqueio de passaporte e entrada no país; para Moraes, especificamente, veio também a imposição da Lei Magnitsky. A lei faz parte de uma legislação aprovada em 2012, no governo Barack Obama, para aplicar sanções econômicas a acusados de graves violações de direitos humanos ou corrupção. Entre as sanções previstas estão o bloqueio de contas bancárias, de bens e de interesses em bens dentro da jurisdição em solo norte-americano. Vale lembrar que essa lei tem validade apenas nos EUA, no Brasil, nada influencia.
Seguindo a corrente de informações falsas nas redes sociais, foi possível observar muitas pessoas comemorando a imposição da sanção ao ministro Moraes (inclusive deputados(as) catarinenses), mas, na prática, nada influencia em solo brasileiro. O Senado Federal parece avançar como nunca na tentativa de impeachment de Alexandre de Moraes. Até o fechamento da edição, faltavam três assinaturas para abertura do processo. Lembrando: a única instituição que pode mexer na composição do STF é o Senado Federal.
Abraço e até semana que vem!

Publicado na edição 1001 de 7 de agosto



