“Não conseguimos fazer mais nada. Sua esposa faleceu”

A dor de perder repentinamente alguém amado para a covid-19

Tunápolis – Invisível aos nossos olhos, o vírus da Covid-19 enfraquece o fôlego de vida dos infectados. O vírus também limita os cheiros, os movimentos, a respiração, e afeta muito mais do que o corpo: abala a saúde mental. Do mesmo modo silencioso que o novo coronavírus se propaga, ele também é enfrentado. Uma batalha que requer resiliência, que se intercala com medos e angústias. Infelizmente o Brasil já registrou 14,3 milhões de casos; 12,6 milhões de pessoas recuperadas; e 391 mil mortes. Apesar da importância de conhecer os sintomas e predisposições dos infectados, o que esses dados não mostram é a dor deixada por quem se foi.

Danilo Kessler e Arlise Wagner tinham um relacionamento de 21 anos. Juntos eram proprietários da empresa de transporte e turismo “Tunápolis Tur”. Junto com familiares e amigos, toda comunidade tunapolitana chorou o luto pela perda de Arlise Wagner, que faleceu na madrugada do dia 26 de dezembro 2020, aos 35 anos. Lutou por 15 dias, sendo 14 dias na UTI do Hospital Regional Terezinha Gaio Basso de São Miguel do Oeste.

Danilo relata a sua agonia na luta contra a doença, que ele também sentiu na própria pele, e mostra um pouco as faces dessa pandemia: a dor de perder repentinamente alguém amado.

Os primeiros sintomas

Era sexta-feira, 04 de dezembro de 2020, dia comum de trabalho para a empresa Tunápolis Tur, que levaria doadores de sangue de Tunápolis ao HEMOSC, para a última doação do ano: “Naquele dia, antes de sair, ela já não se sentia muito bem. Estava com uma sensação de gastrite. Falei para ela (Arlise) mandar outro motorista e ficar em casa, mas como era a última doação de sangue do ano, ela quis levar. Quando chegou em casa no final da tarde estava com mal-estar. Disse para ela ir consultar, mas ela achou que não fosse necessário. No sábado, 05 de dezembro, ela foi levar as mulheres empresárias para Itapiranga. Comentei novamente para mandarmos outro motorista, mas como ela fazia parte do núcleo, ela insistiu em levar as mulheres e participar da programação do dia. Mas naquele dia já não era mais a mesma Arlise, estava mais quieta; foi deitar após o meio dia na van e novamente não voltou bem para casa. Como de costume, domingo de manhã chamei ela para assistirmos o Globo Rural e ela pediu mais cinco minutos. Mais tarde ela levantou, tomou um banho e me disse que gostaria de ir nos pais dela, mas como já desconfiávamos que podia ser covid-19, decidimos por ficar em casa. Fizemos um churrasquinho em casa, somente eu e ela. Lembro-me que ela comeu, mas pouca coisa. Na segunda-feira, dia 07 de dezembro, de manhã, ela decidiu ir consultar. Tomamos um chimarrão e ela foi para o Posto de Saúde. Depois de uns 45 minutos, mais ou menos, ela me mandou mensagem para arrumar outro motorista para ajudar nas rotas, pois ela tinha positivado para a covid-19”, relembra Danilo.

Naquela mesma segunda-feira, à tarde, Danilo também começou a sentir mal-estar. Por insistência de Arlise, Danilo também fez o teste: “Fui no posto, mas daí precisava esperar até a próxima segunda-feira para fazê-lo, mas já recebi medicação. Ao contrário da Alise, eu estava bem. Na quinta-feira (10 de dezembro) chamei a ambulância para vir buscar a Arlise, por que ela estava sem apresentar melhoras com os medicamentos que havia recebido do posto. Pelo contrário, somente piorava, já estava fraca, com falta de ar e certa dificuldade de conversar. Então ela foi encaminhada para Iporã do Oeste. Durante o resto da semana conversamos pelo WhatsApp. No sábado de manhã (12 de dezembro) me ligaram do Hospital de Iporã do Oeste para avisar que haviam transferido ela para São Miguel do Oeste naquela madrugada, mas que a Arlise havia pedido para me avisarem somente no início da manhã para não nos preocuparmos durante a noite. Me disseram também que ela havia sido levada a São Miguel para fazer diversos exames e que iria voltar de novo. Pouco mais tarde decidi ligar no Hospital Regional e então a atendente disse que ela havia dado entrada de madrugada, mas que não tinha informações sobre o quadro de saúde dela e que era necessário esperar um médico entrar em contato. Era 11h e o médico me ligou. Ele disse que ela (Arlise) tinha dado entrada de madrugada, que chegou lá muito mal; que eles estavam prontos para a entubar naquele momento, mas decidiram fazer mais um teste antes, com uma máscara de oxigênio e fisioterapia do pulmão para ver se ela reagiria; e ela reagiu, mas mesmo assim foi para a UTI”, conta Danilo.

Com as informações recebidas pelo médico, Danilo conta que se assustou muito: “Ela na UTI! Fiquei sem contato com ela até terça-feira. Na terça-feira ela estava melhor. Começamos novamente a conversar pelo WhatsApp e ela (Arlise) até pediu para trazer alguns itens pessoais. Assim passou a quarta, quinta e sexta-feira, com ela reagindo bem. Os médicos inclusive falaram que se continuasse assim, ela sairia da UTI em breve. Outro ponto positivo era que os rins dela estavam funcionando cem por cento”.

Danilo conta que, enfrentar a doença por si só já é difícil: “Era muito duro, porque a primeira semana que a Arlise estava na UTI, eu estava isolado em casa. E a situação da nossa família estava assim: Ela (Arlise) na UTI; minha mãe internada em São Miguel do Oeste também; meu pai isolado na casa dele; e eu aqui, não podendo fazer nada. Todos com Covid. Cheguei a fazer uma consulta particular, porque eu realmente estava péssimo, com medo, sozinho, preocupado, sabendo que estava no mesmo barco da covid-19. Você se sente impotente em não poder fazer nada além de rezar”

A intubação

No dia 19 de dezembro, a família recebeu a notícia do hospital de que o estado clinico de Arlise havia piorado, inclusive com febre alta: “No domingo (20 de dezembro) ela piorou muito. Era domingo à noite e ela não tinha me mandado mais nenhuma mensagem; fui para o banho. Eram 19h45min e tinha uma mensagem dela que dizia ‘Vou ser entubada. Cuida de tudo e de todos. Te amo’. Tentei responder ainda, mas ela não visualizou mais. Na verdade, não visualizou nunca mais”, diz Danilo em meio as lágrimas.

Ainda eram 23h00 de domingo e um médico do Hospital Regional entrou em contato com Danilo: “E esse médico me disse o seguinte ‘Pois é! Assumi o plantão e vi que não tinha jeito. Tínhamos que entubar ela (Arlise). Mas e convence-la? Não queria de jeito nenhum. Conversei mais de meia hora até que ela viu que essa era a única saída. Começamos as 20h30min e terminamos agora o processo da intubação. Pensa no susto que ela nos deu. Teve uma parada cardíaca de dois minutos! E para conseguir trazer ela de volta foi difícil, mas conseguimos’. Na segunda-feira outro médico me ligou dizendo que o estado dela era muito grave e que ela estava sem melhora, mas também sem piora. Na terça-feira de manhã (22 de dezembro) meu celular tocou novamente e foi-me dito que eu tinha de subir até no hospital com urgência, com mais um familiar junto, que não fosse pais ou sogros. Subimos eu e o Otinir (irmão mais novo de Arlise). No caminho comentei com o Otinir que deveríamos estar preparados, porque coisa boa com certeza não era. Chegamos lá; nos chamaram em uma sala; começaram a explicar toda a situação dela (Arlise), que o quadro era extremamente grave e para piorar ainda mais os rins estavam parando de funcionar. Que a equipe médica queria uma autorização nossa para iniciar a hemodiálise. Claro que assinamos”.

A primeira e última visita na UTI

Estando no hospital, Danilo e Otinir receberam a oportunidade de fazer uma visita a ela (Arlise) na UTI: “Então uma psicóloga do hospital nos disse que não deveríamos visita-la para chorar, porque o paciente, mesmo intubado, escuta e sente tudo. Lembro que pedi para a psicóloga de como iriamos conseguir não chorar? E a psicóloga nos disse que éramos fortes e conseguiríamos nos manter firmes. Então fomos lá fazer a visita. Eu não sei de onde arrumei forças, não chorei, e conversei bastante com ela (Arlise). Ela estava lá, de olhos fechados, cheia de canos, aqueles aparelhos fazendo ‘pip, pip, pip’. A única coisa que podíamos fazer é continuar com as orações”.

Na quarta-feira (23 de dezembro) Danilo recebeu a ligação de um médico informando que estado clinico de Arlise continuava grave, mas que ela tinha aceitado bem a hemodiálise: “Aquilo me deu mais esperança. Na quinta (24 de dezembro) ele ligou de novo e pediu se eu queria fazer a visita, já que na sexta era Natal. Então fomos. Eram somente cinco minutos de tempo. Minha irmã foi comigo. Quando chegamos lá nos comunicaram que a visita iria atrasar porque havia dado um óbito a pouco naquela sala. Isso já foi um choque. Como minha mãe também estava internada no regional (devido complicações da covid-19), a equipe médica ajeitou uma visita primeiro para minha mãe. Isso foi algo que fez bem, tanto para nós como para minha mãe, afinal era dia de Natal. Depois fomos visitar a Arlise. Pedimos muito para que minha irmã pudesse entrar também, o que, depois de implorarmos, aconteceu. Quando entramos no quarto, a Arlise estava com os olhos entreabertos, algo que na visita anterior não era assim. Começamos a conversar com ela e de repente as lágrimas escorreram do rosto dela. Meu Deus do céu. Daí eu desabei internamente. Mas precisávamos ser fortes e não chorar. Ela sentiu que estávamos lá, eu sei que sentiu”.

Sobre sua a última visita a Arlise na UTI, Danilo conta: “Fizemos brincadeiras com ela. Falei que quando ela estaria boa de novo iriamos viajar novamente e que tudo iria voltar ao normal. Lembro que minhas últimas palavras para ela foram ‘Fique bem logo! Todo mundo está rezando por ti. Volte logo para casa. Preciso de você! ’. Chegamos em casa passada das 15h00 naquele dia de Natal. Final da tarde tocou o celular; era do hospital; o médico me disse que não queria me ligar, mas que eram obrigados a deixar os familiares informados e que infelizmente o quadro de saúde dela (Arlise) havia piorado muito. Que era só por Deus ainda. O médico me pediu também para não ficar sozinho, porque se ele precisasse ligar durante a noite, a notícia não seria boa. Isso era 19h00 do dia 25 de dezembro de 2020. Foi um choque tremendo ouvir isso”.

A notícia

Danilo lembra que após a ligação do médico, deitou no sofá da sala do pai, deixou o celular do lado, carregando a bateria, e conta que não conseguiu dormir nada até às 1h30min da madrugada de 26 de dezembro: “Era 1h30min e meu celular tocou. Levantei, sentei, minha irmã sentou-se do meu lado. Do outro lado da linha havia um médico, que me disse ‘Danilo! Falei que não queria te ligar, mas não conseguimos fazer mais nada. Sua esposa faleceu. Das 20h00 horas de sexta-feira até às 01:00 da madrugada de sábado a Arlise sofreu três paradas cardíacas. Nessa terceira parada não tinha mais o que fazer. Às 01h06min ela chegou a óbito’. Ao ouvir isso fiquei completamente sem chão, sem cabeça, sem nada. Bateu o desespero total. Nessa hora acabou tudo. Foi o momento mais terrível da minha vida. Foi tudo muito rápido. Algo que nunca imaginávamos. Dia 10 de abril fez 4 meses que ela saiu de casa e não voltou mais; não vai voltar nunca mais. É triste, muito, muito triste. Eu sempre falava aos outros que em situações assim, de perder alguém que amamos, que a vida segue, que é necessário erguer a cabeça e seguir em frente. Mas quando é você que sente na pele, é diferente. É muito dolorido e difícil”. Emocionado, Danilo continua: “Começo de dezembro ela estava correndo para cima e para baixo, bem, limpando nossos veículos, resolvendo burocracias do escritório, feliz, e daí de uma hora para a outra a perdi. A gente fica sem chão. Tínhamos uma convivência de mais de 20 anos juntos. Com a partida da Arlise, é um buraco que ficou no peito. Me falavam que ela era meu braço direito. Se fosse somente o braço direito, ainda seria fácil, mas a Arlise era tudo para mim, tanto na empresa como também como pessoa, companheira, amiga”.

Danilo relata que questionou os médicos se Arlise portava alguma doença como diabete, colesterol, ou outra doença, mas que foram enfáticos em dizer que ela não tinha nenhuma comorbidade: “A gente se culpa, pensando que se tivesse ido mais cedo, talvez já naquela sexta-feira que foi o primeiro dia de sintomas dela, tivesse feito o teste e dado positivo, mas eles dizem que não ia internar, iria ficar em casa, seria a mesma coisa. A gente pensa tanta coisa. Mas nunca teremos respostas de como seria se tivéssemos agido diferente. Os próprios médicos se sentem meio perdidos, muitas vezes sem resposta, porque é uma doença que ataca muito rápido e de forma diferente em cada organismo. Os médicos me diziam que eles se sentiam perdidos com o caso dela, porque nenhum tratamento dava certo, nenhum trazia reação no organismo dela”.

Lidar com perda

“E agora, é aprender a viver sem ela. É algo muito difícil, pois era minha companheira de 20 anos. Antes ainda viajávamos muito, mas último ano de pandemia, estávamos somente em casa, juntos. E de uma hora para outra, estou sozinho. Ainda bem que tenho família, muitos amigos, senão não sei como seria para enfrentar isso tudo. Nem eu sei onde arrumo forças para seguir em frente, morando na mesma casa, tocar a empresa e a granja de suínos. As vezes penso até que ponto valeu a pena trabalhar tanto, sacrificando tantos finais de semana e agora, o que temos? Mas o jeito é ir se acostumando devagarinho com esse vazio porque esquecer, jamais a gente esquece”.

Durante a semana, Danilo tenta se ocupar com a empresa e a granja de suínos: “Mas nos finais de semana é o mais difícil, porque daí estou em casa, sozinho. Faço um chimarrão de manhã, mas estou sozinho, pois não tenho mais ela para me acompanhar na hora do chimarrão”.

Kessler diz que teve esperanças na recuperação da esposa até o último momento: “Tive a esperança da Arlise voltar para casa até o último minuto. Sempre mantive minhas orações pedindo a Deus para que ela ficasse boa de novo, mas infelizmente não foi assim que aconteceu”.

Danilo fala do orgulho que ainda tem de Arlise: “Aonde vou, vejo as marcas deixadas por ela. Vou lá na granja. Lá ela gastou mais de R$ 3.000,00 somente em árvores frutíferas. Hoje está tudo tão bonito e agora ela não está mais aqui para provar as primeiras frutas de cada pé que ela mesmo plantou. Aqui em casa tem livros que ela comprou, que ainda estão novos pois ela não teve a oportunidade de os ler. Na granja ela queria uma parabólica para colocar virada e plantar um pé de maracujá. Lá fui eu arrumar a tal da parabólica enorme. Instalamos ela virada e ela plantou o pezinho de maracujá. Agora olho aquele pé de maracujá fechando tudo, cheio de frutas, e ela não está mais aqui para colhe-los. Até um pé de fisális ela tinha plantado. Eu nem sabia o que era isso! Mas ela era assim, procurava o diferente para tornar tudo melhor e mais bonito. Hoje está tudo crescendo, tudo bonito, está lá, do jeitinho que ela queria. Agora é cuidar bem para manter isso como lembrança viva dela”.

“Quero pedir a todos para se cuidarem, evitar aglomerações e se sentir algum sintoma, buscar ajuda o quanto antes. Os médicos da UTI sempre falavam que essa é uma doença muito traiçoeira. Hoje você está bem e no outro dia não respira mais! Se cuidem”, finaliza Danilo.

UMA NOVA OPORTUNIDADE DE VIVER – A alegria da superação

A história de quem sentiu na pele, mas venceu a covid-19 após 10 dias intubada

Tunápolis- Se, por um lado, a covid-19 traz incertezas, por outro lado, existem guerreiros que vencem essa batalha e voltam a preencher a vida com esperança, cheiros, movimentos, o que torna a recuperação nas UTIs dos hospitais um motivo de comemoração.

“Um período de recomeço”: é assim que Lucelda Scheren, de 66 anos, relata seu sentimento por se a primeira tunapolitana a vencer a covid-19.

Lucelda conta que foram 27 dias de luta e sofrimento, que iniciaram no dia 06 de março, com uma consulta que descartava a covid: “Porém como não houve melhora com o tratamento, voltei a consultar no dia 09 de março, o dia em que foi feito o teste que positivou para coronavírus. Recebi tratamento pertinente a doença e como o meu quadro continuou se agravando, retornei para nova consulta no dia 13 de março. Ali fui internada e encaminhada para o Hospital de Iporã do Oeste. Já na ala de covid-19 em Iporã do Oeste, continuei sem evolução, precisando ser transferida para o Hospital Regional Teresinha Gaio Basso de São Miguel do Oeste, no dia 16 de março. Lá permaneci na enfermaria da covid-19 do pronto socorro, já com auxílio de oxigênio para respirar, até o dia 20 de março, quando foi necessária a intubação”.

Com o agravamento do quadro de saúde de Lucelda, a equipe médica optou por realizar a intubação: “Lembro do momento em que o médico conversou comigo, me explicando que precisariam me entubar. O médico me disse que a única coisa que ainda poderiam fazer para eu melhorar era a intubação. Então eu disse que se isso era o melhor para mim, que assim fosse. Mas nem cheguei a pensar se a intubação daria certo ou não. Era a minha única opção, porque meu pulmão estava muito fraco. A partir da intubação não me lembro de mais nada”.

Lucelda ficou intubada por 10 dias, totalizando 12 dias de permanência na UTI. A retirada da sedação ocorreu de forma satisfatória, podendo ser transferida para a enfermaria no dia 1 de abril, onde permaneceu por mais 9 dias, recebendo alta no dia 10 de abril: “No período de internação até a intubação me senti sozinha, aflita, ansiosa e com muito medo, porque não sabia o que poderia acontecer comigo. Cada dia que passava era sofrido por causa dessa incerteza e angústia, ainda mais por estar rodeada de outras pessoas desconhecidas que passavam pela mesma situação que eu. Também se perde totalmente a noção do tempo. Eu tinha a impressão de que dormia muito pouco. Também tive muitos pesadelos”.

Com a saída na UTI, Lucelda apresentou muita debilidade física, fraqueza extrema, mas mostrou melhora e evoluiu diariamente: “Demora vários dias até conseguir organizar as ideias e voltar a uma rotina. Ainda não voltei a assistir televisão ou pegar o celular, porque a gente está lá, internada, precisa do auxílio do oxigênio para respirar, vendo e ouvindo tudo o que acontece em sua volta, além daquele barulho dos aparelhos do hospital. É horrível e não para por um segundo se quer. Não tive nenhuma sequela no corpo, a não ser o fato de precisar fazer fisioterapia para poder voltar a andar normalmente. Cheguei em casa em uma cadeira de rodas, mas fiz algumas seções de fisioterapia e agora já consigo caminhar com o auxílio de um andador. Daqui a alguns dias volto a caminhar normal de novo, graças a Deus. Mas o que eu passei não desejo a ninguém. Quando eu estava internada eu ficava pensando o que somos. Imagina, eu estava lá internada, sozinha, sem ninguém podendo estar junto comigo. Foram dias difíceis, mas mesmo com tudo o que eu estava vivendo, em nenhum momento pensei em morrer. Confiei nos médicos e acreditei que o que eles faziam era o melhor para mim”.

A aposentada conta que nunca imaginou contrair o coronavírus e passar por tudo isso: “Quem diria que eu, um dia, seria a pessoa a ser vítima desse vírus maldito. Em todo o período em que eu estava internada, claro, antes da intubação, eu ficava imaginando o que iria acontecer comigo dali para frente. Eu tinha medo da doença, mas pensava sempre em voltar para casa, pensava em voltar para minha família”.

Hoje, já em casa, Lucelda considera um milagre a sua recuperação da covid-19: “O fato de eu estar viva hoje, sem nenhuma sequela, eu considero um milagre. Eu ganhei uma chance que poucos tiveram, de viver. Acredito em milagres, pois sou a prova viva de que eles existem. Podemos ter tudo, mas se não temos saúde, de nada adianta todo o resto. A gente, muitas vezes, reclama para qualquer coisa em nossa vida, mas quando a gente passa por tudo o que passei, começa a ver a vida com outros olhos. Ganhei uma nova oportunidade de viver. E finalizo dizendo para que todos se cuidem, porque não desejo para ninguém o medo, a incerteza e a angústia que passei durante esses dias”.

Leonice, filha de Lucelda, conta que viveu o momento mais angustiante do tratamento da mãe, em um final de semana: “O hospital não daria nenhuma informação no final de semana, a não ser que algo pior acontecesse. Quando meu telefone tocou e eu vi que era do hospital, no momento pensei que minha mãe tinha falecido. Isso testou meu coração, literalmente. Minha mãe ter passado por tudo isso, justamente nessa véspera de Páscoa, para mim foi a ressureição. Acredito que o que nossa mãe passou é uma prova viva de que todo sofrimento em nossa vida nos deixa mais forte. Quando rezamos, pedimos para ela (mãe) ficar boa e para os médicos serem iluminados para fazerem as coisas certas. Pode ser que a mesma coisa que foi feita para a minha mãe, para outra pessoa não tenha dado certo ou a pessoa não reagiu. O SUS pode ter o que melhorar, mas se não fosse o SUS como seria? É difícil, mas a minha mãe teve uma chance. Quantas pessoas não sobreviveram a essa doença? Que nem vaga de UTI conseguiram? O SUS é um programa muito importante! Imagina o custo diário que é internar alguém em uma UTI”.

Outra filha de Lucelda, Leoni diz que: “Ficamos felizes em ter tido a oportunidade de realizar visita a nossa mãe na UTI. São momentos de sofrimento, mas de muita ajuda à família e para o paciente. Acredito que essas visitas são fundamentais para a evolução no processo de recuperação para muitos pacientes, e acreditamos que fez nossa mãe reagir. Nossa família é imensamente grata a todos os profissionais da saúde de Tunápolis, Iporã do Oeste e São Miguel do Oeste. Também temos um carinho muito especial a todas as pessoas que rezaram pela nossa mãe e nos deram apoio”

Por Suelen Dapper e Paulo Simch