No Fórum Brasileiro de Turismo, realizado on-line e no qual recebi honrosamente o título de Destaque do Turismo Nacional 2020, palestrei sobre o tema ‘A força e a importância do turismo como fonte instantânea de geração de emprego e renda”. E voltei a colocar uma posição que defendo desde assumi o primeiro cargo em Brasília: para o desenvolvimento pleno de seu potencial, contribuindo para a melhoria da vida das pessoas, o turismo precisa ser visto de forma estratégica, central, e não marginal. Temos que mudar a percepção política do turismo. Mudar a imagem que os economistas têm sobre o setor. O turismo hoje movimenta as demais indústrias e não o contrário. Ou seja, o turismo é locomotiva, e não vagão da economia – e este é o tema deste artigo, que busca mostrar também como se comporta esta relação econômica em SC.   

Esta minha primeira colocação também remete diretamente a você que, como cada um de nós, enfrentou e ainda enfrenta as agruras desses seis meses de pandemia, isolamento e restrições. Tenho a mais absoluta convicção – até porque pesquisas e estudos internacionais e nacionais apontam para isso – que um dos desejos que você guarda no coração e na mente neste momento é poder voltar a viajar. 

Nem após a Segunda Guerra Mundial, nem depois do atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, e nem nos meses e anos posteriores a outras viroses como N1H1 e SARS, o ser humano, um viajante atávico desde que surgiu na face da Terra, foi tão impedido de realizar o seu permanente sonho de viajar. 

Certamente é por esse desejo, que hoje está guardado dentro de cada um de nós, que a humanidade compreendeu mais ainda o valor de Turismo&Viagens para sua vida. Nós compreendemos, mais do que nunca antes na história, que viajar não é apenas uma distração ou um entretenimento de férias. 

Viajar hoje significa agregar valor cultural, educacional, espiritual e fraterno às nossas vidas. Queremos conhecer não apenas monumentos e museus, praias e montanhas, mas queremos conhecer gente como nós, viver experiências e aprender com elas, trocar bens culturais e boas lembranças da vida. Não é à toa que os jovens de hoje preferem comprar uma viagem a um automóvel, preferem investir numa aventura do que na aquisição de um bem durável. Viajar e fazer turismo é investir em si mesmo.

Essa constatação, que talvez não estivesse muito clara para todos nós antes da pandemia, agora é uma realidade pessoal e também desafia toda a economia do planeta. A Organização Mundial do Turismo (OMT) estimou, em seu relatório “Turismo e Covid-19”, que ainda em 2020 o setor é a terceira maior categoria exportadora global – depois de combustíveis e químicos. Em 2019, foi responsável por 7% do comércio mundial, gerando um a cada dez postos de trabalho. Segundo o relatório, a pandemia atingiu violentamente esse universo, colocando em risco até 100 milhões de empregos diretos. Pequenos comércios, que apoiam 80% do turismo global, são particularmente vulneráveis. Os gastos com viagens podem cair drasticamente nos próximos cinco anos, reduzindo o PIB global em até 2,8%.

Depois dessa volta pelo planeta, vamos retornar ao Brasil e, é claro, fazer considerações sobre a importância primordial de Turismo&Viagens para Santa Catarina, onde representava, em 2019, nada menos do que 12,5% do PIB estadual. No Brasil, as consequências da pandemia para o turismo também são catastróficas, o que é de se lamentar, já que no pré-Covid vinha num crescendo significativo. No país, a contribuição para o PIB cresceu 3,1% totalizando US$ 152,5 bilhões (8,1%). 

Em São Paulo, onde exerço do cargo de Secretário estadual de Turismo, o crescimento foi de 5,4%, quase o dobro da média nacional. Ocupou 6,9 milhões de pessoas, o equivalente a 7,5% do total de postos de trabalho no país. São Paulo ocupou 16,5%, também numa média superior à nacional. 

Então, das colocações que fiz acima, podemos retirar duas conclusões sobre o impacto da pandemia sobre Turismo&Viagens: uma delas, a principal, sobre a vida de cada um de nós e o nosso desejo de viajar; a outra, sobre o emprego e renda de famílias e trabalhadores de todo o planeta, que dependem de hotéis e pousadas, aviões e aeroportos, cargas e portos, congressos e eventos, entretenimento e lazer, parques temáticos e naturais, marinas e resorts, shoppings e cassinos, bares e restaurantes, gastronomia e artesanato – enfim, todos os equipamentos, operações e estabelecimentos que fazem do turismo locomotiva e não vagão da economia, uma concepção atrasada já há algumas décadas dos manuais da economia mundial. 

Uma das colocações clássicas que esses obsoletos manuais fazem é classificar a economia em “setores” – indústria, agricultura, comércio e serviços – sendo que o Turismo&Viagens seria um mero “penduricalho” desse último setor. O máximo que esses manuais concedem a Turismo&Viagens é a virtude de “impactar sobre outros 53 setores econômicos”, o que é verdade, mas uma maneira de mantê-lo rebaixado à categoria de “vagão”. 

Se já compreendemos, agora, que turismo é locomotiva, então é hora de compreender também que não pode ser tratado como “vagão” pela gestão e administração pública. Não foi outro o motivo da minha luta pela manutenção do Ministério do Turismo, ameaçado de extinção e absorção por outra pasta, na transição entre os governos Temer e Bolsonaro. E também não foi outro o motivo da minha frustração quando a pasta do Turismo foi extinta em Santa Catarina, no início do governo Carlos Moisés.

Dar ao turismo o tratamento de locomotiva na gestão pública é primordial diante da nova realidade econômica do planeta, do país e do estado. Em São Paulo estamos desenvolvendo um programa de saída da crise e retomada do crescimento econômico, tendo o turismo como uma das alavancas. E isso se deve principalmente ao fato de que o governador João Dória traçou essa estratégia como política de Estado.

E é essa estratégia que gostaríamos de ver aplicada à nossa Santa Catarina, onde o turismo, por vocação, também puxa os vagões da economia.


Por Vinicius Lummertz, secretário de Turismo de São Paulo