Liberdade de expressão é umas das grandes conquistas da maioria das sociedades modernas e é um dos valores coletivos que mais
defendemos. No entanto, existem limites para esta liberdade – gritar “fogo” em um teatro lotado que não esteja em chamas não é tolerado, pois leva a duas consequências perigosas: as pessoas sairão correndo e poderão se machucar e elas se tornarão mais tolerantes a este grito, e poderão ignorá-lo quando as chamas realmente estiverem ardendo. Por outro lado, não gritar fogo se você for o único a ver que este risco é real é igualmente inaceitável. Ajustamos a liberdade até o limite na qual o seu exercício não leve a ações diretas que causem dano a indivíduos ou a sociedade.

Este direito arduamente conquistado permitiu com que grupos anti-ciência se formassem, defendendo que a Terra é plana ou que vacinas não funcionam. Toleramos estes grupos pois, aparentemente, não estavam colocando em risco indivíduos ou sociedades, uma vez que os terraplanistas ou os antivaxers eram protegidos pelas pessoas de bom senso que usavam as coordenadas do GPS para pilotar aviões ou que se vacinavam e com isto protegiam quem optou por não se vacinar.

Esta pandemia, no entanto, mostrou o novo risco para a liberdade de expressão. Alguém com autoridade médica, política ou
social, ao usar a sua liberdade de expressão para anunciar algo não científico ou a andar por aí sem máscara pode produzir um grande dano a muitos indivíduos e à sociedade. Em uma pandemia, a liberdade de expressão fica parecida com o fogo no teatro lotado – quem primeiro enxergar o fogo, tem a obrigação de gritar “fogo” bem alto e jogar água em vez de ficar calado e soprar ar.

A ciência já não explica mais o mundo apenas pelos quatro elementos clássicos e com todas as dificuldades de uma atividade
complexa e ampla como esta, ela produziu uma quantidade imensa de conhecimento sobre o coronavírus nestes oito meses desde que ele apareceu. Não é hora de soprar ar sobre o fogo e sim de usar as soluções que a ciência já conseguiu e, principalmente, avisar a todos para que fiquem distantes desta ameaça ficando em casa, usando máscara e evitando se aproximar de qualquer pessoa fora do círculo familiar. A máxima “com liberdade vem responsabilidade” passou a ter outro significado na primeira pandemia na qual todos podem falar publicamente suas opiniões, pois estas suas opiniões podem, sim, matar.