Com inteligência e informação! Conheça seu inimigo, encontre pontos fracos e ataque estes pontos fracos. Sem inteligência e informação muitas vidas serão perdidas em qualquer fronte de guerra. Fundamental para vencer o nazismo foram os cientistas, liderados pelo brilhante Alan Turing, que quebraram os segredos de comunicação dos inimigos.

O SARS-Cov2, popularmente chamado de coronavírus, é o nosso inimigo. O que sabemos dele? É um vírus que é transmitido pelo contato direto ou por gotículas proveniente do espirro, tosse ou respiração de infectados. Além disso, o vírus permanece vivo por várias horas em diversas superfícies. Se alguém tocar estas superfícies e depois levar as mãos aos olhos, boca ou nariz, poderá se infectar. O vírus é morto por sabão e álcool 70%, duas formas fáceis de matar este inimigo. Isto é a primeira estratégia de combate – reduzir o contato direto e próximo entre pessoas e limpar as mãos com sabão ou álcool 70%. Identificada a primeira fraqueza do inimigo, achamos a primeira defesa – o distanciamento social.

– Basta ficar em casa!

O que mais sabemos do nosso inimigo? Ele é uma bolinha de proteína com coroas, imagem que está em todos os lugares e provavelmente nos nossos piores pesadelos. Dentro desta bolinha de proteínas tem uma fita de 29.903 bases de RNA, a informação que é usada para construir 10 proteínas. Estas proteínas formam a parede do vírus (proteínas S, E e M) e também protegem e copiam o RNA. A proteína S  do vírus consegue se ligar a proteína ACE2 de células do sistema respiratório, e com isso faz com que o vírus fique preso à superfície destas células. Quando isso acontece, outra proteína destas células, a TMPRSS2, abre o vírus e permite com que o RNA invada as células.

– Basta evitar que a proteína S do vírus se ligue à proteína ACE2 da célula ou impedir a ativação do TMPRSS2, o vírus não conseguiria entrar!

Quando o RNA entra na célula, a informação do RNA do vírus passa a comandar as células do organismo infectado. Como “fake news” que infectam muitas das nossas mentes, as informações do RNA do vírus convencem estas células que agora elas precisam seguir ordens do novo comandante, o vírus. Estas ordens são muito claras – copiar o RNA do vírus e produzir novas proteínas virais. Depois o vírus ordena a célula a empacotar e liberar milhares de partículas do vírus, que por sua vez infectam milhares de células ainda saudáveis.

– Basta inibir as enzimas que copiam o RNA ou que são usadas para produzir as proteínas do vírus que ele não conseguirá se reproduzir!

Qualquer vírus ativa o sistema imunológico a montar uma reação contra ele. Esta reação envolve proteínas chamadas de imunoglobulinas que tem nomes como IgG e IgM e várias células que são selecionadas para atacar e matar células do organismo infectadas pelo vírus e com isto eliminá-lo. Em aproximadamente 80% dos casos o sistema imunológico vence o vírus, mas nos outros 20% o vírus vence a batalha, se acumulando em todo o pulmão e em vários outros órgãos.

– Basta ensinar ao sistema imunológico quem o coronavírus é através de uma vacina e com isto o sistema imunológico vai ganhar sempre!

Mesmo nos casos mais graves, o sistema imunológico eventualmente vence e elimina o vírus, mas a destruição deixada por esta batalha é tão grande, que os pulmões se enchem de líquido e a respiração se torna impossível sem o auxílio de respiradores.

– Basta comprar respiradores!

– Basta evitar a super-ativação do sistema imune!

Dos “bastas” acima, o único disponível e comprovadamente eficaz no momento é o distanciamento social, que reduziu a proporção de morte em todos os lugares em que foi aplicado. Na China, cidades que aplicaram o distanciamento social no início da epidemia tiveram muito menos casos do que cidades que aplicaram este distanciamento mais pra frente. Obviamente que o distanciamento social não pode durar muito tempo, mas esta é uma decisão que deve ser tomada com DADOS, não na base do “achismo” ou de uma esperança – TODOS gostaríamos de passar a Páscoa juntos. Mas é exatamente o TODOS desta frase que impede com que a gente se encontre, pois se a gente voltar muito cedo à vida normal, a nossa Páscoa corre o risco de ser sem os nossos avós ou pais e talvez sem alguns dos jovens também. É óbvio que nem todos podem ficar em casa e que não podemos ficar em casa para sempre. Mas a decisão de quem e quando podemos sair não pode ser tomada baseando-se na simples vontade de sair, e sim em dados epidemiológicos, ou seja, de quantas pessoas estão infectadas, doentes, gravemente doentes e curadas.

Como podemos atacar os outros pontos fracos do vírus? Muito esforço está sendo feito para testar diversos fármacos já aprovados para outros vírus ou outras doenças, pois reposicionar fármacos é mais fácil e rápido do que aprovar um fármaco novo, que demora vários anos. O que mais tem se falado é a hidroxicloroquina, uma fármaco usado para tratar malária. No momento em que escrevo esse texto (27.03.2020) não existe um teste clínico publicado que demonstre que ela realmente é eficaz. O único teste clínico publicado de um pequeno estudo chinês mostrou que a hidroxicloroquina sozinha não reduziu a quantidade de vírus nos pacientes. Existem vários relatos de casos individuais, mas sem um estudo comparando grupos de pacientes tratados e não tratados é impossível dizer se estes pacientes individuais que se curaram, realmente tiveram este desfecho por causa do tratamento, ou por outros motivos. Isto não quer dizer que junto com outros tratamentos ou em grupos específicos de pacientes a hidroxicloroquina não possa se mostrar eficaz. O que não pode é tomar qualquer medicação sem indicação médica, pois a hidroxicloroquina pode até matar, se tomada numa dose muito grande.

No final, venceremos esta guerra com os vários “bastas” – distanciamento social primeiro, para reduzir a superlotação dos hospitais e UTIs e dar tempo aos cientistas para terminarem testes clínicos com os vários fármacos que estão sendo testados e, principalmente, conseguir a tão esperada vacina para erradicar este vírus de uma vez por todas da face do planeta Terra, como foi feito com a varíola.