Irmão Lassalista Nelson Rabuske, professor na escola La Salle, filho de Amaro e Lúcia Rabuske, de Linha Ervalzinho, viveu dias de terror na cidade de Beira (de 534 mil habitantes), capital da Província Sofala, Moçambique, onde reside, que foi duramente castigada pelo Ciclone Idai, entre os dias 13 e 14 de março. Ao saberem do ocorrido pela imprensa bateu a aflição na família Rabuske, “por cinco dias ficamos sem comunicação com nosso filho, esperando notícias, se estava vivo ou morto”, comentou Lúcia. Felizmente o filho saiu ileso.

Sabedor da aflição da família e amigos de sua terra e também ciente da compaixão da população daqui, em ajudar os moçambicanos, com orações, doações e pensamento positivo, Irmão Nelson se concentrou e passou a escrever um relato para a família, amigos e leitores de sua terra.

 

Relato de uma tragédia

Foi dia 11 de março que anunciaram que dia 12 do mesmo mês, um ciclone estava se aproximando de Moçambique, mais precisamente, Sofala, estado em que os Irmãos De La Salle exercem sua missão. Chegou dia 12 e nada do anunciado ciclone chegar. Parecia uma mentira. Foi então que no dia 12 anunciaram novamente que o ciclone estava a caminho e que chegaria no dia seguinte, dia 13, quinta-feira. Até meio-dia, nem vento, nem nuvens, nem chuva, mas sim muito sol. Às 13h, porém, o vento começou a soprar, não muito forte, mas já balançava os galhos das árvores um pouco mais do que o comum. Às 14h já se percebia que o vento realmente era mais forte do que o comum, mas nada de anormal ainda, visto que muitas vezes o vento sopra um pouco forte. Assim também às 15h e às 16h, mas às 17h parecia que era verdade, que este tal de Ciclone DAI realmente estava mostrando a cara. Às 18h já começavam as preocupações e às 19h os olhares assustados já estavam estampados nos rostos de quase todos. Eram galhos que quebravam, árvores que balançavam, forros que rugiam, chapas de zinco que barulhavam ao som do vento que assobiava sempre mais forte e a chuva começando a aparecer. Estavam anunciados 200mm de chuva para menos de 24 horas e realmente não choveu tanto quanto na enchente que há um mês castigou duramente a cidade toda.

Mas até este momento, fora os sustos das rajadas de vento, tudo ainda era aceitável e dentro do esperado para um ciclone. Chegou 21h e ninguém na casa falava mais. As operadoras de telefone, nenhuma delas funcionava mais. Todos estavam pasmos. O vento era muito forte. As chapas de telhas de amianto já voam, as chapas de zinco despencavam e o vento cada vez mais forte até chegar 22h quando os sustos chegavam a ser contínuos. O vento beirava 180 Km horários e a casa chegou a tremer do outro lado, na sala de TV e refeitório, onde estávamos sentados, já apavorados, para nos proteger, porque os coqueiros, as coconuteiras e as mangueiras se encontravam do lado dos quartos. Foi o primeiro coqueiro que sobre ela caiu, quebrando a cobertura, mas não danificando as paredes. Olhamos para fora, com a lanterna, porque já não havia mais corrente elétrica, há horas e vimos mais dois coqueiros derrubados sobre o canil. Corremos para o outro lado da casa e vimos que a lichieira e o cajueiro já estavam carecas também, com os galhos quebrados e os que restavam, sem folhas. E assim, por mais de uma hora consecutiva o vento parecia não parar, nem sequer um segundo. Mas chegou 23h, após uma longa expectativa que parecia não mais ter fim, parecia uma eternidade esta hora que não passava, quando enfim, relativamente, um pouco de calma. Os ventos pararam, ou melhor, pareciam ter parado, após uma hora de fúria. Mas era só impressão. Ainda continuava soprando o vento, mas um pouco menos forte. E fomos para a cama, achando que tudo terminara, pensando em ver alguns estragos no dia seguinte. Foi então que, perto das 2h, já dia 14, o vento mudou de direção, aumentou a velocidade e completou seu trabalho. Era assustador, ou melhor, desesperador, talvez mais precisamente, apavorante, algo que com palavras não dá para dizer. Só sabe e só compreende, quem viveu um pesadelo desses. E foi, para milhares de pessoas, a “noite mais longa” que já viveram em suas vidas. Uma experiência entre a vida e a morte em que, para muitos, a morte venceu; mas para muitos mais, foi a vida que levou a vitória; vida que hoje mais é sobreviver do que viver. Sem comer, nem vestir, sem aonde morar, sem “com o” que cozinhar e menos ainda “o que” cozinhar.

E foi mais uma hora e meia de fúria total, destruição em larga escala, um quebra-quebra sem igual, derrubando outro coqueiro sobre a casa, arrasando com o pomar, derrubando mangueiras inabaláveis, jogando eucaliptos de 50 anos da paróquia para todos os lados, para ao final, voltar ao sossego. Não que fosse sossego, mas era menos assustador. Não se dormia mais. Estávamos todos traumatizados e nem bem lembramos como chegamos até as 5h, quando, um por um, passando pela água dos quartos, da sala, corredores… arriscou abrir as cortinas e lançar um olhar para fora das janelas. Era inacreditável. Olhares que mostravam um misto de pasmo, susto, admiração, improviso, buscando entender, ou mesmo acreditar no que estavam vendo. Mas ainda não dava para acreditar. A paisagem se transformara tal que não dava mais para conhecer. Íamos para um lado, para outro, e a cada passo, mais surpresos do que antes. Logo no início a ficha ainda não tinha caído. O quebra-cabeças estava ainda desmontado. E pouco a pouco, à medida que a razão foi tomando seu espaço, e a compreensão do que acontecera finalmente chegou, a desolação unânime, de uma cidade de meio milhão de pessoas, era a única expressão possível. Desolação, desespero, tristeza, desânimo, olhares perdidos, assustadíssimos, rostos chorosos, cabeças balançando inconformadas, sem saber o que dizer, multidões pedindo socorro…, silêncio, silêncio e mais silêncio. Não havia mais o que dizer. Todo mundo precisava de um tempo para se refazer. Finalmente às 9h horas do dia 14, os ventos cessaram. Foram 20 horas de ventos entre médios, fortes e fortíssimos chegando a 220 Km horários entre as 2h e 3h da madrugada. Foi uma experiência horrível, principalmente entre as 2h e 3h30 da madrugada, o ponto máximo do ciclone. Esta hora e meia foi longa. Muito longa. Longuíssima. Extremamente longa. Terrivelmente longa. Nesta hora e meia, a casa vibrava, eram barulhos, ruídos, rugidos contínuos e o tempo não passava, parecia que todos os relógios estavam com a pausa ligado.

Mas, pouco a pouco, no dia seguinte, as pessoas apareciam. Só falavam tragédias, desastres, calamidades, coisas horríveis, mortes, ferimentos, pessoas quebradas, o hospital abarrotado: choros e mais choros, sem lugar, sem atendimento, e por entre as árvores caídas, por cima dos galhos, debaixo dos troncos, por entre as folhas, pessoas sendo carregadas nos braços e mais pessoas chegando, e mais ainda, algumas vivas outras mortas, carregadas no colo, sem transporte e mesmo se tivesse era impossível passar por sobre 50 árvores caídas, umas por cima das outras, atravessadas no caminho. Eu mesmo vi, duas motos, cada uma carregando um morto. Os pés do morto estavam amarrados à moto, e o morto em posição sentada, sentado entre o condutor e o caroneiro, em que o caroneiro se segurava firme ao condutor para manter o morto sentado, pressionado entre os dois para não cair.

 

O caos está instalado

Depois de 6 dias, ainda não havia por onde passar. Era necessário escalar, porque todos os acessos estavam completamente trancados. Trabalhávamos todos os dias em 15 homens, e ainda não tínhamos conseguido limpar nosso pátio e os acessos às duas escolas: uma com 3.500 estudantes e a outra com 250. Era muito trabalho com serrotes, facões e machados. Motosserra nem situação normal se consegue com facilidade, muito menos agora.

Chegou sábado, chegou domingo e nem percebemos que era fim de semana, só trabalhávamos. A esta altura, a realidade já se impunha cruelmente. Sábado não parecia sábado, nem domingo, domingo. Quem ainda não tinha acordado, acordou. Quem não tinha percebido, percebeu. Quem não se deu conta, se deu. O que mais se ouvia era marteladas, machadadas, facãozadas, serrotes, podões em pleno embalo. Passávamos mais horas durante o

dia molhados do que secos.

No domingo cozinhamos e almoçamos sem um refrigerante ao menos e voltamos aos trabalhos.

Nos domingos não temos cozinheira. Ainda não havia

eletricidade e os congeladores já começando a descongelar. Já estávamos começando a nos preocupar. Tínhamos carne e bastante polpa de frutas do nosso pomar e que congelamos. As polpas todas estragaram; a carne ainda se conservava.

Nos dias seguintes, acordamos cada dia com mais chuva. Chovia noites inteiras. Era água por todos os lados. Já não escoava mais.

Cinco dias após a tragédia, finalmente conseguimos comprar um gerador. Parecia bom. Mas não era. Era chinês e durou um dia. Levamos mais 2 dias para consertá-lo. Funcionou 5 dias e outra vez avariou. Mais 3 dias e foi consertado de novo. Um pouco de alívio, afinal, e esperança que não apodrecessem as coisas no freezer. Mas a esta altura outros problemas já apareciam. Tínhamos gerador e não se achava mais diesel para abastecê-lo. O problema é que numa tragédia, são geradas outras tragédias menores.

Acabou o gás de cozinha e não se encontra mais até hoje. Cozinhamos à base de carvão, quase todo molhado. Para as pessoas, mais problemas a cada dia. Gente pedindo socorro, querendo um pouco de carvão, um pouco de trabalho, um pouco de comida, uma chapa de zinco, um pouco de dinheiro para poderem comprar algo. O pouco dinheiro que tinham foi gasto para consertar os estragos da casa e agora não há mais para comprar comida, que está subindo de preços vertiginosamente.

Dormir é um alívio. Acordar é um pesadelo. Levantar-se da cama, uma superação. Num estado deprimente como tudo se encontra, só superando-se. A vontade é de não levantar mais. Sair de casa é terrível. Mesmo para ir ao pátio. Tudo fede, tudo está podre, água, barro, lama, galhos e folhas apodrecendo, animais mortos fedendo. Fedentina, lixo, podridão, água parada por todos os lados, é horrível. A ajuda humanitária internacional demorou para chegar.

Eu mesmo assisti a uma cena de distribuição de arroz. Assisti-a ao longe. Eram sacos de arroz que tinham molhado e que estavam mofando e apodrecendo. Eram multidões, aos milhares, correndo desesperadamente, em direção ao comboio onde distribuíam este arroz. Doía na alma ver algo assim. Mas é a realidade que vivemos e que nos golpeia dia e noite. É preciso ser muito forte para não desabar.

Mas a tragédia não se limita só a nossa cidade. Em Buzi, os estragos foram ainda piores. Além do ciclone, ainda tiveram a infelicidade de inundações por rompimento de barragem na Zambia, país vizinho. Buzi não é muito grande. Não sobrou nada. A água lavou e levou tudo. Em pouco mais de meia hora a água subiu quase 3 metros com fortes correntezas. Muitas pessoas foram afogadas dentro das próprias casas. Foram mais de 700 mortos só ali. Pessoas ficaram 3 dias em cima de árvores para sobreviver, até que chegasse socorro. Algumas pessoas, exaustas, pegavam no sono e caiam e se afogavam também. E não havia como salvá-las, porque salvá-las significaria morrer quem caiu e quem tentava

salvar.

Domingo, 31, fui visitar o campo de acolhimento para conversar com as pessoas de Buzi que foram trazidas ali de helicópteros e barcos. Histórias horríveis. Um jovem contou-me, com lágrimas caindo, que depois de um dia e meio em cima da árvore ele e sua família, segurando o pai morto em cima dos galhos, simplesmente tiveram que empurrá-lo na correnteza, enquanto a família assistia e se despedia do corpo, de cima dos galhos, enquanto a água carregava o corpo para enterrá-lo no mar. Não havia mais como segurá-lo. Já cheirava, e nem tinha como enterrá-lo.

Estes habitantes de Buzi, hoje vivem em barracas, em condições sub-humanas, como eu mesmo presenciei domingo. Era 11h da manhã e ainda não tinha água, nem para preparar o café da manhã, seguido de uma noite sem janta. Ali não há sombra, todo dia ao sol, no calor intenso, com mais de 2 mil pessoas morando em menos de 150 barracas, algumas dormindo nas salas descobertas, com muitos mosquitos, num pátio de escola destruída. É um choro contínuo de crianças com fome, doentes, mães desesperadas, muitas grávidas, mais mães ainda com crianças de colo e muitas crianças abaixo de 7 anos, todas sem estudar provavelmente o ano inteiro. Mas até o momento conseguiram ter uma boa refeição por dia, o almoço, que disseram ser digno, graças aos doadores e voluntários.

A ajuda internacional demorou um pouco para chegar, mas muitos aviões sobrevoaram a cidade da Beira nos últimos dias, dos quais, vários eram aviões de carga. Mas é bem triste assistir às entregas dos mantimentos. É um desespero tal que as pessoas se pisoteiam, brigam, atropelam, xingam e insultam para ver se lhes resta uma parte dos donativos. Parece algo animalesco, tipo quando se abre uma mangueira de bois selvagens em que uns pulam, atropelam e correm por cima dos outros. Nestas horas a gente entende até aonde o desespero humano pode conduzir as pessoas. Ordem, educação, polidez, gentileza, respeito, delicadeza, fileiras, etc., tudo isso desaparece quando o desespero, a fome, a luta pela sobrevivência se faz sentir. É o limite entre viver e morrer que se vê cada dia mais.

Os poucos recursos que alguns ainda tinham, acabaram. Não tem mais hortas, nem folhas de abóbora, nem folhas de batata, nem folhas de feijão nhemba, nem de mandioca, nem de cacana, nem folhas de mboa (caruru). E as pessoas viviam à base destas folhas refogadas.

Hoje, muitas pessoas já nem mais conseguem chorar. Já choraram tudo o que tinham para chorar. Nosso trabalho muitas vezes é ouvi-los, fazê-los contar as suas histórias para alguém poder acolher todo o sofrimento e aliviar, assim, um pouco da sua dor. Não temos como ajudar a todos, materialmente, mas o apoio espiritual também é importante nestas horas difíceis.

A situação está muito difícil. A cólera já está se alastrando, a malária também aumentou. Há muita água parada e a proliferação dos mosquitos é muito grande. Os médicos sem fronteiras montaram um hospital móvel, no campo de futebol em frente à paróquia, e ao lado da nossa casa, só para atender os doentes de cólera e vacinar as pessoas.

Ainda continuamos sem energia elétrica, mas muitos esforços estão sendo feitos para recuperar as redes de eletricidade e talvez não serão 2 meses até voltarmos a ter energia. Mas calcula-se que serão 6 meses até recuperarem todos os danos.

 

“Com apenas R$ 1,00 dá para alimentar uma pessoa por um dia”

Queria aproveitar para deixar registrado aqui, nossa imensa gratidão pela ajuda que várias pessoas de Itapiranga e São João do Oeste já nos enviaram. Cada real doado faz diferença e alivia a dor de alguém. Com apenas R$ 1,00 dá para alimentar uma pessoa por um dia. Com R$ 35,00 alguém pode viver um mês. Já conseguimos comprar mosquiteiros, cestas básicas, e chapas de zinco para cobrir as casas daqueles que trabalham conosco.

As ONGs evitam doar os recursos ao governo por causa da corrupção que é bem pior do que no Brasil, mas confiam nas instituições religiosas. Se alguém gostaria de aliviar o sofrimento de alguém daqui, informe-se junto às paróquias de Itapiranga, São João do Oeste e Tunápolis, que já se organizaram para nos ajudar. Se alguém quiser falar diretamente comigo, pode fazer pelo WhatsApp. +258 84413 9908, ou e-mail: nrabuske@me.com.

Vou finalizando por aqui. Talvez já tenha escrito demais. Mas poderia escrever muito mais. Agradeço ao Jornal pela oportunidade de poder partilhar um pouco da nossa história que, infelizmente desta vez, é uma história trágica, esperando também vosso apoio por meio de uma oração, um pensamento positivo, uma sintonia, ou alguma doação. Gostaria que vocês todos se sentissem representados aqui, porque sou filho desta terra que, com muito carinho, carrego comigo, na memória e no coração, para onde quer que eu vá.

Que Deus abençoe ricamente a todos!