Guido Lenz, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

O Iluminismo é um conjunto de ideias centradas na razão e na ciência como a principal fonte de autoridade e legitimidade. Ela defende a liberdade, o progresso, a tolerância, o governo constitucional e a separação entre o Estado e a Igreja. Estas ideias foram desenvolvidas há mais de 200 anos na Europa e hoje são adotadas pela grande maioria das democracias no mundo. A adoção do iluminismo pela sociedade gerou uma melhora em todos os aspectos da vida para uma grande porção dos cidadãos. O filósofo canadense Steven Pinker acabou de publicar um livro intitulado O Novo Iluminismo enumerando todos os benefícios do iluminismo para a humanidade – são 20 capítulos que tratam de saúde, expectativa de vida, riquesa, paz, conhecimento, diretos humanos, segurança entre outros e mostra que em todas estas áreas o iluminismo trouxe melhoras imensas.

Se o iluminismo trouxe tantas vantagens, porque estamos tendo que defendê-lo do obscurantismo, que defende que a autoridade vem de quem grita mais alto, tem mais armas ou é mais agressivo? Entre outras coisas nós nos desiludimos com o iluminismo por causa do próprio iluminismo. A ciência, tão defendida pelo iluminismo, produziu meios de comunicação em massa como a TV e a internet. Estas ferramentas são em grande parte usadas para o bem, mas dado o nosso interesse particularmente alto por tragédias e notícias ruins, elas são usadas para divulgar muito mais estas coisas do que notícias boas. Neste sentido, a sensação das pessoas é de que hoje a vida é muito pior do que foi antigamente, apesar de hoje muito mais pessoas terem instrução, saúde, acesso a bens materiais como carro, eletrodomésticos, viajens do que quando éramos crianças.

A outra questão é que a vida em vários aspectos se tornou tão segura que perdemos a noção do risco. Por exemplo, depois da introdução da vacinação, quase nenhum bebê ou criança morre de doença infecciosa, o que levou a uma percepção de que doenças infecciosas não são perigosas. Isto levou a triste atitude de alguns pais de não mais vacinarem os seus filhos, o que está produzindo o reaparecimento de doenças como o sarampo.

A possibilidade de dizer qualquer coisa nas redes sociais e ter um grupo de pessoas que, por mais maluca que seja a afirmação, condordem com o que foi dito reforçou uma sensação em nós que somos espertos e praticamente todas as áreas do conhecimento – o que é impossível. Claro que a sensasão de parecer esperto pode ser reconfortante, mas uma coisa é a sensação de sabedoria e outra coisa é realmente saber. O saber raramente vem de só achar que algo é assim ou ler algo nas redes sociais. O saber de fato tem que estar baseado numa observação sistemática e organizada feita de acordo com os preceitos da ciência.

Estamos numa encruzilhada para saber se seguimos acreditando no iluminismo, que nos deu coisas tão variadas quanto as vacinas, o avião, a televisão e o direito das mulheres de votar ou se vamos negar o iluminismo e adotar práticas como não vacinar nossos filhos, armar nossos cidadãos (vide coluna da semana retrasada) ou tantas outras coisas que estão sendo propostas e que não tem fundamento científico nenhum. Espero que o Brasil e o mundo se deem conta antes que seja tarde demais que seguir a razão e a ciência é muito melhor do que seguir nosso “achismo”.