Guido Lenz, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Ao longo dos 4 bilhões de anos que a vida existe na Terra, ela se adaptou a uma das características mais centrais do nosso planeta: as 24h de duração de um dia. Muitas formas de vida possuem processos que sincronizam o funcionamento destes seres vivos com a duração do dia.

Neste ano, o Prêmio Nobel em Fisiologia e Medicina foi concedido a três pesquisadores americanos que descreveram como este processo funciona em moscas e também em vários outros organismos, inclusive nós humanos. Este relógio funciona através de um processo de retroalimentação negativa. Para entender melhor isto, vamos imaginar estas cinco etapas: 1. a célula produz um RNA; 2. Este RNA produz uma proteína; 3. esta proteína impede a produção do RNA; 4. Com isto menos proteína é produzida e 5. o RNA novamente aumenta. Com isto se tem um ciclo que demora 24h para se completar e faz com que a proteína, que regula o funcionamento das células e do organismo esteja elevado sempre de dia e baixo sempre a noite.

Em humanos, uma das coisas que é produzida neste ciclo é a melatonina, que aumenta um pouco antes de dormir e é muito importante para que tenhamos um sono tranquilo. Aliás, estes estudos levaram à descoberta de que a melatonina pode ser usada para melhorar o sono daqueles que têm dificuldade para dormir no horário certo ou os que acabaram de chegar de um país com um fuso horário bem diferente.

O prêmio deste ano é mais um destes exemplos de ciência básica feita em moscas de laboratório que parecia não ter muita importância, mas que mostrou como mecanismos básicos da vida funcionam e agora está nos dando remédios importantes para distúrbios do sono e muitas outras contribuições para melhor entender a vida e com isto melhorar as nossas vidas.

Em tempo, nesta semana um grupo de 22 ganhadores de Prêmio Nobel escreveu uma carta ao nosso presidente implorando com que os cortes drásticos feitos à ciência brasileira sejam revertidos e que não se jogue no lixo um investimento pequeno, mas importante, feito ao longo de décadas na ciência brasileira.

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